Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

Mary Paz - Primeiro Capítulo (5)

 

(continuação)

 

Entretanto o Ser dela, aquele que o seu ventre tinha gerado à dez anos atrás, fruto que deu à Terra e à incompreensível civilização que acabava de se extinguir e que desde pequena temera, corria ao encontro da sua própria existência: de Mary .
Arrebatada à vida e aos seus, a criança, suja e esfarrapada, deixava transparecer um olhar escuro e profundo de medo. Oh, horror!... Mais que todos os horrores a que estava a assistir, era o perto tornar-se longe, ao ver ali o seu Ser, completamente indefeso, perante uma multidão alucinante que se atrofiava consecutivamente na esperança de encontrar um abrigo. De súbito, sentiu que seus frágeis dedos tocaram o seu Ser amado. Aquele que a manteve vivente num mundo que sempre soube não ser o seu. Mas... Tinha sido possivelmente uma ilusão da sua dor, pois seus olhos viram-na ser tragada pela multidão que neste momento quase que fazia parte de ambas.
As suas retinas aprisionaram o seu olhar profundo e o seu grito: mamã!!!!!!
Durante instantes, ficou estatelada no chão, com os olhos perdidos na multidão.
Um grito “desumano” cruzou por cima de todos os já existentes. O seu grito de Mãe. Não queria acreditar! Tentou por mais do que uma vez levantar-se do chão e correr na direcção onde vira a menina desaparecer, mas eram tantos os que a impediam perdidos nos confins de si mesmos que nem davam conta da sua agonia, e manadas humanas de pés meios calçados, sujos e despidos iam pisando seu corpo como se fora solo. Como chão destes enlouquecidos fugitivos, não sentia a dor à sua passagem sobre seu corpo caído. A dor era uma outra muito maior. Deixou-se ser esmagada como castigo à sua incapacidade de ter por um instante agarrado a filha e segurado firme a sua mãozinha que se estendia. Fraca. Era uma fraca que não conseguiu salvar a menina que a tinha conseguido encontrar no meio daquela manada humana e esperançada a tinha quase alcançado. Meu Deus tudo estava perdido. Tinha que correr para a encontrar e continuava a ser solo de gente. Não conseguia perdoar-se. Ela tinha que o ter conseguido. Era seu dever e sua obrigação.
Decidira viver para a proteger, mas falhara! O seu ilimitado amor por Liha , tinha-lhe sido insuficiente para a proteger. Tinha-a perdido e nunca mais a voltaria a encontrar. As lágrimas brotaram de seus olhos já apagados pelo desespero, e desejou nunca ter pedido aos Deuses da sua ilusão constante, que a fizessem nascer, só porque ela, Mary , tinha que viver num lugar que nunca fora o seu. Mas o seu egoísmo e a sua insegurança em relação à vida na Terra, não lhe tinham permitido ver o “crime” que iria cometer, fazendo nascer num mundo medíocre e mesquinho, um outro ser (o seu Ser), que como ela, também iria acabar por sofrer. Ela que sempre se manteve contra os ciclos infindáveis da vida e se lhes preparava para um dia lhes fazer frente, destruindo-os, tinha provocado a nascença de um outro ser indefeso – a sua filha – para entrar ou reentrar quem sabe, neste ciclo de morte e de vida infindáveis. A dor e a culpa martirizavam-na neste instante, mais do que toda a destruição a que estava a assistir. Até que, cambaleante, conseguiu reservas para se erguer e caminhar na busca do que sabia não encontrar mais.

 

(continua)

 

.... d'os filhos do Sol
livros
publicado por lazulli às 11:31
Junho de 2007
SintoMe: ... a querer combater o Islão

EscritoPorLazulli lazulli às 17:46
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Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

Mary Paz - Primeiro Capítulo (3)


(... continuação)

 

A lei do Homem que come outro Homem, para a preservação desta nova raça, (meio homem, meio mutante) é o ser útil à sociedade presente. Lei esta que acaba por ser uma sequência da lei implantada na Terra desde os primórdios dos tempos. Assim sendo, a sociedade vigente, continuaria a ser até ao fim dos Tempos, (caso estes venham algum dia a existir) a continuidade das leis das sociedades anteriores, pois que em todas elas o poder dos mais fortes sobre os mais fracos, sempre foi a que o Homem adoptou na sua vida na Terra, de forma a poder subjugar os mais frágeis em prol dele mesmo. Isto, porque, na memória dos Homens, estava registado que um tal Deus deu a Terra ao Ser mais capaz, de forma a que este dela soubesse tirar proveito. Realmente, a criação deste Deus, bem que soube tirar proveito desta Terra que lhe foi dada por herança, consumindo-a até que dela não pudesse tirar mais nada, deixando-a completamente despida de vida. Mas este Senhor poderoso que é o Homem que Deus criou à sua imagem e semelhança, não se contentando em destruir o que o seu Deus lhe tinha dado para viver, começou por fim ou princípio, a consumir os filhos de Deus para seu próprio sustento. Embora que já desde o princípio da humanidade lhes tenha vindo a consumir a alma com falsas verdades, desviando-os assim dos seus verdadeiros fins.

 

 

 

Parece até ironia do destino. O Homem que Deus fez, ultrapassou o seu Criador. Dele, hoje não resta mais nada a não ser um “Ser”, que não é o Homem que Deus criou e colocou sobre a Terra, nem tão pouco o filho da Terra que lhe deu o corpo, pois que a esta, também este acaba de destruir, prescindindo dela para sobreviver, com a arrogância que sempre o susteve. A ambos, o Homem sempre soube retirar o que mais lhe aprouve e talvez quem sabe, tenhamos pela frente um novo Deus, surgido provavelmente de uma vingança para com os que o fizeram: A Terra e Deus. Neste momento, passámos a ter três Deuses neste mundo:

A Terra, Deus e o Homem.

Neste momento o Homem era mais um Deus do que um simples "mortal".

Não prescindia ele das leis essenciais à vida, das duas forças que o sustiveram durante milénios? Ele estava, até, pronto a desafíá-las.

Como será o futuro com o aparecimento desta nova espécie? Mary desejava não ter nunca que se defrontar com nenhuma destas três forças, pois às três conhecia bem. Não era também ela, um pouco de todas elas?

 


(continua...)

 

bem...

livros

publicado por lazulli às 10:37

Junho de 2007

SintoMe: saindo de cima para tentar impedir o que rasteja pelo mundo

EscritoPorLazulli lazulli às 22:36
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Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Mary Paz - Primeiro Capítulo (1)

(fotodanet)

 

 

 

Primeiro Capítulo





Ao despertar de um longo e profundo sono que mais parecia ter sido o despertar de uma incontestável eternidade, Mary, depara com o “Paraíso” mesmo diante de si.
Se o tão falado jardim do Éden, realmente existiu – ao invés de ter sido uma “história” inventada pelo Homem, devido à necessidade que sempre teve de justificar o seu aparecimento na Terra, dando assim uma razão para a sua existência –, esse Paraíso Perdido, só podia ser este que se encontrava perante si neste preciso momento. Nunca seus olhos, por breves instantes que fosse, tinham tido possibilidade algum dia, de ver e apreciar beleza semelhante. Longos e estreitos carreiros, envoltos num emaranhado de grandes árvores floridas, que pendiam graciosamente até ao chão, iam-se distendendo por entre uma imensa folhagem de ramos de onde pendiam frutos de todas as cores num interminável jardim de sonho. Os estreitos carreiros, imersos numa penumbra luminosa, exalavam uma fragrância multifacetada que provinha da multitude de lírios vermelhos, magníficas flores brancas prateadas, orquídeas, anémonas, flores azul-celeste, amarelas, vermelhas, púrpura e sumptuosas flores flamejantes, alaranjadas, incrustadas irremediavelmente nos troncos de enormes árvores azuis, que pareciam depositadas, não plantadas, sobre o chão atapetado de pétalas soltas. Juncado por um tapete multicolorido, o chão, que vistosas borboletas, sobrevoavam num constante e gracioso bailado treme luzente, pareciam manter a esperança em cada partícula de vida existente, no local que a rodeava.
Na semi-inconsciência em que se encontrava, os cinco sentidos que supostamente ainda possuía, tinham deixado de exercer correctamente qualquer uma das suas funções, impedindo-a de interpretar as suas reais necessidades de compreensão e entendimento, tanto com o mundo exterior que a cercava como com aquele que a habitava interiormente. Enquanto permanecia inerte, deitada sobre si própria, com o corpo a doer-lhe, como se estivesse a desfazer-se aos poucos, só seus olhos se moviam nesta quietude de morta viva, andado de lá para cá e de cá para lá, meio aturdidos com o fantástico sítio onde tinha ido parar. Neste vaivém de imagens insólitas, com as dores a persistirem em tirar-lhe a pouca razão que lhe sobrava, sua mente, fervilhava num emaranhado de lembranças e tradições, que lhe tinham sido incutidas, numa aprendizagem insuficiente, durante a sua vivência na Velha Terra (Mundo acabado de ser destruído, pela própria Humanidade que o ergueu).
- Não! Não é possível! Não posso continuar viva neste inferno!
- Não... Isto não é o inferno em que tenho vivido. Nem tão pouco um outro mundo qualquer que tenha conhecido alguma vez. Então, que local é este, que minha memória não tem qualquer registo a não ser o da sua semelhança com a própria Terra, não no presente mas no passado?! Mas, se isto não é nem pode ser a Terra, onde estou eu?! Se realmente cheguei a morrer na minha caminhada sem fim, pelo árido caminho da vasta planície de terra queimada, envolto num denso e pesado nevoeiro; a que tipo de mundo vim parar? Lugar este, que em tanto se assemelha à Terra em que vivi e que tão pouco tempo tinha para poder desfrutar devido ao stress provocado por uma sociedade de consumo que originava em cada ser, uma vivência acelerada, numa luta consecutiva, na tentativa de uma melhor existência ou mesmo, na maioria das vezes, apenas a necessidade de sobrevivência.
- Mas como?! Perdi a capacidade de pensar. Não sei quem ou o que sou. Também não sei onde estou.
Aturdida, tentou levantar-se do solo, mas não era capaz. As forças tinham desaparecido do seu corpo, que ia de quando em vez tacteando com as mãos para ter a certeza se ainda existia. Mas, nem precisava, as dores, persistentes, continuavam a mostrar-lhe que de algum modo estava viva. À sua volta o silêncio era quebrado suavemente pela constante simbiose entre os elementos naturais e a vida propriamente dita. Árvores de especiarias várias, flores sarapintadas de várias cores, belíssimas palmeiras, árvores de toda a espécie de polidos e lisos troncos cobertas de belíssimas flores aromáticas, sebes e flores, passeavam pela relva esverdeada salpicada de flores escarlates e pequeninos botões de um fruto vermelho, que nem conhecia. A paisagem que a cercava era composta de uma infindável flora colorida. Até onde a sua vista alcançava, o “jardim” com altos e baixos, que deixavam água prateada percorrê-lo por cantos e recantos de pedras de todas as cores em suaves cascatas, entre os pequenos arvoredos e árvores de cores infindáveis, onde o azul e dourado eram predominantes, num constante movimento de vida.
A Terra é estranha, com sua vida natural e sadia. O que é isto que vejo? A mais linda Terra existente, numa Terra queimada e moribunda, onde só os pequenos vermes podem continuar vivos.
Ainda confusa com a descoberta deste mundo desconhecido, enquanto seus olhos vagueavam em redor de si mesma, vivia dentro de si própria, pensamentos e sentimentos que julga terem existido.
Nos recantos de uma coisa que talvez tivesse por nome memória, a imagem do formato e do conteúdo de um livro, no qual constava não somente a esperança da Humanidade numa nova vida, onde o nascimento, crescimento, envelhecimento e morte, um dia não existiriam, e sim, o bem estar e a felicidade eterna, numa nova Terra, feita para o efeito, pelo Criador-Deus, contendo também, a maior expiação do Homem pela vida que viveu, sem contudo lhe ter sido dado o direito de escolher como viver essa vida imposta, e mesmo se queria nascer na Terra para a viver, torturava-lhe o espírito.

O eco do passado, provavelmente longínquo, repetia-se dentro de si, de encontro a si mesma, machucando-a cada instante mais e mais, como num alerta ao seu tão já parco conhecimento sobre tudo, tornando-se lentamente num riso sarcástico que a atormentava. A promessa de um Paraíso terreno ou não, bem que podia ser este em que se encontrava acidentalmente, pois que este, retratava o pensamento e a palavra de Deus escrita pelos Homens. Onde Ele, Criador de toda a Humanidade, prometia um mundo melhor, como recompensa do sofrimento que estes haviam tido durante a sua existência na Terra, provando assim o amor que tinha para com aqueles que havia Criado, dando-lhes até livre arbítrio para a escolha de uma vivência que por “acaso” nem tiveram oportunidade de escolher. Não era este pois como o Paraíso prometido? O lugar onde o Sol beija a terra, e as plantas crescem em paz, num imutável convite à serenidade perpétua e bem estar? Lugar de recompensa dado ao Homem pelo sofrimento e sujeição provocado pela sua existência na Terra? Não era este o lugar ambicionado por todos aqueles que viveram na esperança de uma recompensa para o sofrimento que “viver” provoca, ou na sombra de um Deus Omnipotente e Omnisciente, capaz de dar a felicidade ou mesmo perdoar os revezes muitas vezes feitos em “Seu” nome, contra a Verdade e a Justiça?
Depois de uma demorada reflexão, ao pensamento do Homem no passado, Mary, retorna à inacreditável realidade que a cerca. Desalentada, deixa cair de novo seu rosto na terra seca, incapaz de caminhar para o riacho a dois passos de si e ali fica, até que a noite azul cai e desce sobre seu corpo, um manto fresco e acolhedor.

SintoMe: apreensiva com o caos que se instala no mundo

EscritoPorLazulli lazulli às 09:54
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