CasaDeCristal, lazulli, eu, mary paz, humanidade escravizada, a grande mãe, 2006, 1990
Sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

Mary Paz - Segundo Capítulo (6)

 

 

VI

 

 

 

 

Taudus continuava parado sobre sua imponente montada, à espera...  à espera de um milagre que sabia não se ir concretizar. O milagre que fizesse surgir diante de si a Sua Amada. Única Dona de seu coração, ausente para um sentir onde ela não pudesse estar presente. Com o olhar perdido no horizonte, vazio de esperança, sentia o desânimo tomar posse de si. Há já muitos mícrons de tempo, que havia saído da cidade-do-Sol à procura da sua amada que nunca houvera visto depois do Tempo ser criado. Tinha palmilhado a Terra toda e a esperança de a encontrar, já o tinha abandonado. Seu cavalo amigo, firmando leve no solo suas patas envolvidas numa penugem farta que esvoaçava suavemente na brisa fresca, mexia-se inquieto pela ânsia do nobre cavaleiro que aguardava impaciente no seu dorso nu. Sentia a dor de seu amado senhor, por sua busca inglória, por aquela que desejava desde todo o sempre. A visão dantesca de beleza do conjunto, cavalo e cavaleiro, era o porte de ambos, que com dimensões descomunais brilhavam sob os raios de um sol luminoso que insidiam sobre eles, numa luxuriante combinações de cores vivas, tornando cavaleiro e cavalo num só. O tom acobreado da pele de Taudus e a cor-de-fogo de Drackin, seria difícil ser suportado por um mortal comum, de tal modo a vida em toda a sua essência se manifestava em toda a sua plenitude nestas duas estranhas criaturas de beleza inigualável. A impaciência de ambos, pela demora de Lahra, única dos três que podia cruzar todos os ares, deixava-os apreensivos.

Sua fiel companheira, tinha de novo entrado no outro lado da vida, na Terra dupla, no mundo da dualidade, deixando o mundo da unicidade, na tentativa de procurar aquela que ele amava, muito antes de nascer no mundo das formas, como forma. Mas era inútil... olhava o horizonte... inexistente... completamente desacreditado de um encontro, que o Universo Uno havia previsto nos primórdios. O mesmo não acontecia com sua fiel amiga e companheira de todo o sempre, que parecia guardar em si a esperança de todo o Universo, pulsando em uníssono dentro da própria fé, que era hoje o seu desalento de tanto acreditar. Uma única vida em milhares de vidas que se tinham cruzado com ele nesta busca infinita e desesperada. Já quase não sabia se valia a pena continuar.

Envolvido numa tonalidade dourada que reconfortava o Ser do seu Ser, desmontou o seu doce amigo, e caminhou, com suas sandálias douradas que lhe torneavam as pernas lisas até aos joelhos de onde pendiam livremente três fitas com minúsculos símbolos, sobre a areia brilhante como grãos de ouro fino, que aprisionava e expelia os raios solares de seu irmão Sol, dando ar ao próprio ar. Ficou reconfortado quando no horizonte, parecida sair do nada, viu aparecer Lahra em toda a sua imponência majestosa, que não se cansava de venerar. Multicolorida, ondulava seu corpo enorme com a leveza de uma pena ao ar. Os movimentos suaves de seu voo alado faziam aparecer, consecutivamente, milhares de símbolos geométricos coloridos de luz que o fazia sentir o seu mundo primeiro.

Sempre que apreciava a rara beleza de Lahra, era transportado até ao seu interior, sentindo a essência da vida com uma saudade tão infinita, como esta luta infinita que se tinha desencadeado desde o início, aquando da separação e união do Universo único, num único.

Para quando a separação, desta união? Estava cansado de lutar, cansado de esperar.

E voltaria ele a seu reino perdido e esquecido? Tornaria ao Universo das formas sem forma?

Para quando o fim e princípio de tudo isto?

Apesar da sua viagem interior ao universo perdido e já esquecido de muitos, não deixou de aperceber-se do voo estranho e cuidadoso de Lahra ao longe. Não era habitual nela, este seu cuidado quando planava pelos céus da Terra. Intrigado, concentrou a visão do seu Ser, penetrando o colorido multicolor dos seus símbolos que haviam adquirido novas expressões e, espantado, viu preso nas garras desta, um pequeno volume que o fez estremecer de pavor. Parou a visão nesta estranha presa minúscula, em proporção às dimensões de Lahra e dele próprio, que teve que triplicar o poder da visão para perceber o que Lahra lhe trazia. Onde teria Lahra pegado semelhante massa escura e coberta de sujidade? Tentou comunicar com ela, entrar na sua mente e usar os seus olhos, mas sentiu que esta não lhe permitiu a fusão de mentes. Taudus ficou assustado. O que se passaria com sua fiel companheira? Nasceram juntos e tinham sido dados um ao outro como um Todo. Tentou comunicar com seu irmão Sol e também este escureceu levemente, como se estivesse doente. Algo errado estava a acontecer com os seus amigos. Até Drackin , parecia ter-se alheado dele, fixando estático e apreensivo o voo de Lahra. Parecia que todos sentiam uma morte indesejada, como se para eles a morte, algum dia, tivesse tido tal significado. Ficou petrificado, quando a sua ave amiga poisou suavemente junto de si com aquele embrulho pequeno e horrendo, depositando a seus pés uma criatura que embora parecesse humana, era desprovida de qualquer beleza e não tinha mais de metro e meio.

Olhou Lahra nos olhos, surpreso, e pela primeira vez viu sua águia a chorar. Dois fios de água vertiam-lhe pelos seus maravilhosos olhos verdes. Já não tinham a paz, já não era a mesma. A dor trespassou-lhe o Ser. Ajoelhou junto dela e tentou afagar a sua penugem, mas sentiu-a retrair-se de cansaço, como se o Tempo inimigo tivesse tomado posse dela e a tivesse transformado numa anciã do Tempo. Onde teria estado? Quem era este estranho Ser que tinha depositado a seus pés? Só poderia ser a causa do envelhecimento precoce de sua companheira e da tristeza de seu irmão Sol. Queria entrar em sua mente, tentar comunicar com ela, mas não conseguia, parecia que a dor, tinha feito a águia esquecer o seu senhor. Espantado, tentou procurar a causa de tudo isto e, curioso e revoltado, tentou perceber quem era o estranho Ser que, de tão pequeno, tinha conseguido realizar feito tão grande e tão nefasto. Aproximou mais seu olhar desta estranha criatura com receio de lhe tocar, e tentou perceber quem era e o que ali fazia, e muito gostaria de saber de onde tinha vindo. Ficou surpreso quando o pensamento de sua amiga entrou dentro do seu e a ouviu dizer-lhe:

- Toca-lhe! Ela é tua.

Olhou espantado para a águia, queda, e pareceu-lhe ver repreensão no seu olhar, pela sua indecisão e incompreensão.

- Toca-lhe, porque ela está morta. Já o Tempo e a morte a tinham tomado quando a encontrei caída num mundo intermédio ao nosso. O nosso amado Ar, senhor absoluto desse mundo intermédio, conduziu-me até seu corpo depois deste ter baloiçado sem parar, por entre todos os ares ali existentes. Tinha ouvido o seu chamado por ti, quando parti em sua busca, guerreiro, mas não cheguei a tempo, nem por ela, nem por ti.

 

 

(continua)

ficção, livros

publicado por lazulli às 15:44

Sexta-feira, 21 de Setembro de 2007


EscritoPorLazulli lazulli às 09:03
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