CasaDeCristal, lazulli, eu, mary paz, humanidade escravizada, a grande mãe, 2006, 1990, poesia. livros
Sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

Mary Paz - Segundo Capítulo (5)

(continuação)




V





 

 

Quase morta e com o peso do corpo dobrado, dificultando-lhe ainda mais a penosa marcha que parecia não ter fim por este mundo de ninguém, tentava desesperadamente não morrer sem perceber o que já tinha esquecido mas sabia que havia existido. Seus lábios secos, como a poeira que pisava, doíam-lhe, sedentos de uma humidade que não vislumbrava no horizonte, por mais que se esforçasse por isso. Até o Sol, seu eterno amigo - porque para um ar tão quente, tinha que haver um por ali, embora o não avistasse de modo algum -, parecia querer penalizá-la da sua constante ousadia, de querer saber o que ninguém sabia. Ele, que sempre estivera lá no cimo, intocável, sem sentir as agruras da existência e que sempre lhe sorrira quando a ele recorrera, parecia não aceitar a sua persistência, castigando-a com todas as dores que o mundo tinha, fazendo-a sentir-se culpada, por tudo e por todos. Tinha raiva! Raiva da vida e da morte! Pois, para ela, até morrer lhe era difícil. Não queria viver! Não estava a lutar para se manter viva! Procurava a morte teimosamente mas esta insistia em não chegar, adiando interminavelmente a satisfação do seu querer. Exausta, cria crer que lá longe num lugar inimaginável alguém se comprazia com a sua degradação atroz. Parecia-lhe ouvir as gargalhadas do Destino a desafiá-la para uma caminhada de morta-viva, sem retorno e sem regresso. Não era amor ou pena de si o que sentia. Era raiva! Raiva da sua impotência, por não poder chegar ao lugar onde os deuses com certeza se encontravam, para assistir de longe à sua queda.

Como que por magia diabólica o vazio parecia-lhe cada vez maior, na alternância dos seus estados materiais. Envolvida, consecutivamente, em mundos compostos unicamente por, Ar e Fogo, quase nada restava do seu pequeno corpo e muito menos da sua pequeníssima capacidade de pensar. Doía-lhe tudo. Meio desfalecida, olhava os turbilhões constantes, dos rugidos de um e de outro elemento, por entre as pálpebras semi-serradas e, observava o seu enorme Poder. A sua omnipotência. A Força destes dois, que ainda a não tinham morto, porque provavelmente estava morta e não tinha consciência da sua própria morte, era imponente e parecia omnisciente, enquanto a elevava no ar, transformando-a num insignificante objecto sem peso ou a atravessava por entre fogos de milhares de cores, sem que estes a quisessem realmente queimar. Ou não pudessem. quem sabe?! Mas sentia o seu corpo arder por dentro, fazendo-a soltar gritos de dor. - Ó Deuses, haveria pior inferno, do que este?! Bem dentro de si, naquele lugar sempre impenetrável, ainda se ouvia a pensar: - "Seria este mundo de contrastes, húmido e seco, o seu próprio pensamento a fabricar novas miragens, como quando fabricava o próprio sonho? Ou este seria o castigo que lhe tinham reservado para os seus crimes, enquanto habitante da Terra?

Atirou-se sobre a poeira escaldante, e começou a maldizer com a voz que ainda lhe restava, o seu bendito Deus, acusando-o e desafiando-o a vir sentir o que sentia. Queria que ele soubesse, antes que seu corpo morresse de vez, que o odiava, que o detestava, por ter feito nascer a vida onde ela não existia. Mas as lágrimas eram mais fortes e a dor de não ver o seu senhor, eram bem maiores. Não podia lutar mais contra tudo. Não havia mais lutas a ganhar ou a perder. Deixou que seu corpo caísse inerte no pó quente, deixando que este a fosse absorvendo lentamente e não se permitiu desafiar mais o que não entendia.

Tudo estava perdido.... Mas antes que seus olhos se fechassem de vez, ainda balbuciou o nome desconhecido e, ao fazê-lo, pareceu-lhe que no céu, um pássaro enormíssimo descia em sua direcção e a seu encontro... mas já a morte estava prestes a tomar conta de seu miserável corpo, fazendo-a entrar no esquecimento total.


(continua)

igual a mim mesma
ficção, livros

publicado por lazulli às 14:35

Quinta-feira, 20 de Setembro de 2007

EscritoPorLazulli lazulli às 02:00
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