Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

Mary Paz - Segundo Capítulo (4)


 

IV

 

 

 

 

 

Entrava no mundo do sonho com a realidade que sempre a perturbara e quase não sabia distinguir o que era verdade. Se este mundo ou se aquele de onde viera. Esta actual existência, surgida do nada, fazia-a sentir a vida que nunca ousara escolher porque a  lei da sobrevivência opunha-se, consecutivamente, ao seu Ser, obrigando-a a participar de um mundo nunca sentido como seu. De toda essa anterior existência, fracassada e sem nenhuma razão de ser, restava  uma angústia permanente e um sem fim de perguntas e respostas, que a relançavam para novas e intermináveis perguntas, enquanto existisse. E, continuava a existir. Não tinha dúvidas que existia enquanto caminhava dentro deste estranho e maravilhoso mundo, intensamente salpicado de uma variedade tão grande de flores, que tinha dificuldade em identificar aquelas que de algum modo, independentemente da sua cor e dos locais de onde surgiam, se assemelhavam a algumas que tinha visto na  Velha-Terra, devido à enorme quantidade e diversidade de plantas e flores, que se espelhava por todo o lado, numa flora vasta e intensa, incomparável. Contemplava Cravos, Cravinas e Crisântemos, entrelaçados em Angélicas, Chuvas de Prata, perfumadas por  Gardénias que pareciam beijar as Dendróbiuns que presas das árvores se estendiam em direcção ao chão atapetado de pétalas aveludadas que pareciam sempre ali terem estado, viçosas e frescas, agitavam-se suavemente como que num bailado invisível e só perceptível a sentidos pouco comuns.

Não tinha a quem agradecer toda esta beleza mas não seria por isso que deixaria de olhar as Delphinium, Amarílis, as Heather, as Íris, parecendo belas deusas gregas do arco íris, ali representadas. As Blues, Gerberas, Astromeias, Alpinas Vermelhas e Rosas, Anémonas e as Antúrio. A extravagância das Rosas Azuis,  as suas favoritas naquele imenso jardim colorido, que parecia dono e senhor absoluto desta paisagem idílica onde nunca existiriam trevas capazes de ali penetrar a não ser as trevas da sua própria mente em constante divagação. Os nenúfares de cores brilhantes e de núcleo dourado, agitavam-se levemente como que a chamar-lhe a atenção para a desviar de pensamentos tão descabidos num mundo destes. Extasiada com tanta beleza, confusa e perplexa, olhava os reluzentes cursos de água prateada que enxameavam velozmente e no auge da excitação, as Stephanotis, Gardénias, as Tulipas e os Narcisos, estonteantes.  Os jasmins, as heras, madressilvas e as camélias, juntas a arbustos mais densos, pareciam luzeiros no meio das sebes, das trepadeiras com gavinhas que pareciam ir para lado nenhum e heras roxas, vermelhas, amarelas, azuis de todos os tons, desde o azul marinho aos azuis violeta, âmbar e açafrão, por entre verdes, castanhos, dourados e prateados, que compunham uma flora única. A variedade das finas e sensíveis Orquídeas, Oncidiuns, logo a faziam correr com o olhar até aos Gladius em forma de espada que ficavam meio a propósito junto dos Protea.  Tudo o que via, enquanto caminhava metida dentro de si mesma, em busca de ténues luzes que lhe dessem uma explicação para tudo quanto vivera, agregado ao mundo físico ou não, era de uma inolvidável e intrínseca beleza onde só a luz com ausência total de escuridão aparecia resplandecente como uma fatalidade eterna, às suas insistentes e persistentes interrogações. Por escassos segundos, parava os olhos cansados nesta imensidão, como para os reconfortar de toda a fealdade que tinham visto antes de ali chegar e deixava que as gotículas que lhe caiam pelo rosto em grande velocidade até ao chão, com pressa de se integrarem nos riachos que corriam suaves por todos os recantos, desaparecessem perante o seu olhar molhado, na água prateada que lhe parecia sorrir.

Provavelmente o futuro que a aguardava nesta Nova-Terra, dentro de uns tantos outros anos, dar-lhe-ia as respostas às perguntas que a haviam perturbado ao longo de toda a miserável existência a que “alguém” a havia sujeitado, indiferente ao seu querer de não existência, obrigando-a a suportar uma vida sempre indesejada. Uma vida que sempre sentiu não ser a sua. Por mais que os olhasse de perto e os tentasse igualar, cumprindo desse modo a sua função de vida, que era nunca por em causa o precioso e raro bem, que era  esta existência e amá-la sobre tudo e sobre todos, a sua pobre alma opunha-se a esta firme filosofia, numa resistência sem limites como se dentro dela o grito da vida estivesse ainda preso em sua garganta. A dor de nascer tinha ficado tão agarrada a si, que ainda hoje a sentia e doía-lhe ter nascido. Questionara todos. Indagara. Mas não obtivera resposta inteligente de todos aqueles letrados da Vida. Perante ela, de cada vez que os indagava e deles obtinha as provas duma iliteracia que mais do que a alma lhe magoava a mente sempre pequena, parecia-lhe que nem um herege era tão estigmatizado quanto ela o fora, por negar desde criança o maior e único bem de toda a Existência. A Vida. A Grande Preciosidade. O tesouro único a que todos deviam humildade, obediência, devoção. Sentia-se insana com a insanidade deles. Alguém estava ou era louco. Alguém estava ou era cego. Ela, nos seus momentos de maior doçura, tentava, esforçava-se por ver esse precioso tesouro. Abria desmesuradamente os olhos. Esfregava-os desesperada. Queria ver o que eles viam mas não conseguia. Só o seu irmão, lá no topo onde não lhe podia chegar lhe reconstituía as células gastas de tanto esforço e parecia dizer-lhe: "- Não penses querida. Eles não sabem o que é a vida. Não sofras. " Encostava o rosto ao vidro da janela e deixava as lágrimas correrem de dor. Olhava-o e interrogava-o em silêncio sofrido. Porquê?! Como resposta sentia-o entrar dentro de si e inundá-la completamente. Adormecia-a. Acarinhava-a. Confortava-a e ... deixava que por instantes o tempo parasse e ela não existisse. Quando os olhos se abriam, sorria-lhe a agradecer-lhe mais uma vez o seu cuidado com a sua mente para que esta não se perdesse de vez no mundo da ilusão. E, era assim que o tempo ia correndo e ela o contava ansiosa para que ele terminasse definitivamente para si. Sonhava todos os dias no regresso a Casa. À Casa dela. Àquela que embora não conseguisse, mentalmente, fazer uma reconstituição perfeita de como era por lhe haverem apagado quase toda a memória na Passagem dos mundos, sentia-a ali algures à sua espera. E ela ia voltar um dia e nunca que iria aqui voltar. Para isso se preparava. Queria estar pronta para poder novamente pegar na sua espada de lâmina reluzente e afiada. Sentir o movimento dos pulsos quando a bramia no Ar e rasgava o vazio ou o aço forjado a fogo encontrava na sua veloz trajectória Matéria Essência para queimar. Destruir. Aniquilar. Olhar o desaparecer e extinção de mais uma daquelas coisas que aprisionava quase para sempre  e irremediavelmente, o ente. Ah, que saudades de si mesma nesta Batalha interminável, por todo o Universo visível assim como o invisível. Por todo o Universo material assim como o imaterial. Que saudades da sua própria dignidade. Da sua verdadeira e única luta. Tinha que conseguir, voltar a envergar as suas verdadeiras vestes e encimar as fileiras dos combatentes pela Essência do Universo Essência.

Entrar nesta matéria  grosseira ou qualquer outra, era algo que repudiava veemente. Não queria ter que voltar a ver um único lado da beleza da vida e da forma das coisas. Um lado que todos viam mas que negavam perante si mesmos ou perante os outros ou ainda lhe atribuíam todas as necessidades necessárias à vida. Como se o bem estivesse dependente do mal. Como se o bem só existisse porque o mal existia. Não! Não entendia! E ninguém será capaz de mostrar a lógica desta ilógica toda. Não queria aprender, perceber, entender e muito menos aceitar a belíssima lógica deles. Se existiam culpados para todo este engano, ela queria saber quem eram. Ela queria saber porquê. O porquê da morte, do sangue, da fome, da dor, da mentira, do engano, do desespero, da tragédia, da descrença. Do caos. Do pérfido. Das lágrimas perpétuas de toda uma humanidade sofrida. Viu sangue. Viu morte. Viu o caos humano entranhado nesta vã filosofia. E não entendia. Não percebia, como podiam eles sentir o Sol em suas existências, se aceitavam o bem e o mal com o mesmo enlevo e ainda agradeciam todas as dores, quando as não negavam! Se era verdade que eles não a entendiam não deixava também de ser verdade que contra todas as filosofias e sabedorias, ela vivera para sempre, até este momento que se poderia chamar de mágico ou de sagrado desprezando os seus ridículos conceitos de vida, até porque todos eles os asfixiavam do nascimento à morte, premiando-os uma vida inteira com a prisão da sua alma. A único bem que deveria ser amado por todos eles! Mas não. Preferiam uma escravidão sem limites e virar o rosto à verdade que gritava ou chorava dentro de cada um.

Ela nunca aceitaria a versão dos homens e sim a Verdade plena. Tinha que existir uma razão para a sua existência e bem que poderia percorrer o universo inteiro, durante biliões de anos e ocupar todas as formas de vida, mas no final ela saberia a verdade. Queria olha-la de frente e aí saber se finalmente o seu choro pararia ou se pelo contrário seria eterno. Se afinal, existiria diferença entre o choro dela e o choro deles. Se tinha valido a pena mais eternidade do que tinha sentido sobre ela, até ao momento, não deveria existir. E, se existisse, ela já lhe conhecia a dolorosa sensação. Acreditava estar preparada para tudo. Por isso siga os trilhos meio mágicos que serpenteavam por entre  anémonas, Não queria nunca mais ter que magoar o seu ente com o absurdo da vida lógica e sagrada a todos. Ela não aceitaria viesse de onde viesse qualquer verdade. Por isso caminharia até deixar de ser. Seria tão persistente aqui como o fora até aqui. Incomodaria todos os sistemas. Procuraria todas as engrenagens e ou se apressavam em dizer-lhe a verdade ou poderiam estar certos que a luta pela alma dela continuaria.

 

Não existia passado nem presente, como ousar então ousar pensar existir um futuro, que esclarecesse toda esta sua indignação? Indignação esta à qual nunca ninguém pôs termo. Que pretenderiam afinal os Senhores do Universo, com estas mudanças de existências inexplicáveis, se é que realmente estes existiam.

 

Era o existir no não existir que se fundiam, sempre imutáveis como a vida e a morte. E que lhe venham falar do que eles próprios não fazem ideia, dando consecutivas justificações – senão razões – para o que nem sabem o que é ou como é. Para eles só conta que existem e fazem existir. Sendo existir o supremo bem que o Universo nos concedeu. E ela?! Que fará ela neste ou noutro mundo qualquer, amarfanhando a vida dentro de si, sem que tenha a esperança num acabar definitivo, para o seu Ser torturado que nasceu com um misto muito maior de deus do que dos homens? Quem ouve o seu apelo distante e tão desesperado, que se compadeça de sua existência tão indesejada? Mas lutar por um acabar, ela o iria fazer num futuro próximo, sabe Deus com que leis e com que armas, para destruir uma existência inútil e sem sentido.

 

- Deixai-me morrer ou deixai-me viver, mas não permitais que se prolongue o meu Ser tão cheio do inexistente. Dai-me então num mundo onde o não existir, seja o supremo prazer de existir.

 

Enquanto caminhava absorta em seus pensamentos, Mary não se tinha apercebido que a paisagem verdejante, enfeitada de lustrosas pétalas, começava a desaparecer sob seus pés descalços, dando lugar a um finíssimo pó, que lhe ia absorvendo os pés na sua marcha no nada e aparentemente para o nada. Ventos quentes iam soprando suave ou bruscamente, envolvendo-a num rodopio interminável. Baloiçando para trás e para a frente, para um e outro lado, como uma frágil giesta tentando continuar presa à terra e as lágrimas a deslizarem pelo rosto devido às agrestes e fortes correntes, tenta desesperadamente descortinar algum lugar de apoio, mas constata estarrecida que não tem como sentir o solo por baixo de si, que se remove a cada insegura passada. Tudo em seu redor é uma espécie de vácuo, onde rodopiam ventos constantes, elevando apenas este estranho pó que quase a sufoca. Com as narinas meio entupidas, tenta respirar e, de tanto ar manifestado em tufões, furacões, tornados e vendavais, que a envolvem no seu todo, atirando-a para um e outro lado, quase sufoca no meio dele. Fechando os olhos, deixou que as forças impiedosas a arrastassem e a atirassem a seu bel prazer, contra o nada. Vogando meio inconsciente, como pena ao vento, com os olhos semicerrados, ainda tentou, num esforço desesperado ver para onde era levada mas, era impossível ver fosse o que fosse no meio dos constantes ventos. Por entre uma luminosidade irreal, como se de um elemento etéreo se tratasse, ora caminhando, voando ou arrastada, quando todos os ares a resolviam largar por alguns instantes como que para descansar da sua tarefa de movimento constante, completamente envolvida pelas ondas frias e quentes em torno de si, tentava pensar, ordenar pensamentos distantes ou recentes que lhe permitissem saber da sua morte ou da sua vida. Bem à pouco tempo atrás, parecia-lhe, não estivera ela num paraíso de vida? Como aconteceu esta transformação tão repentina? Teria se afastado tanto assim, daquele lugar abençoado, onde tinha aparecido por acaso? Como foi entrar neste vácuo, sem se dar conta, onde virasse em que direcção se virasse não conseguia ver, se tinha fim ou princípio, este estranho mundo. Indecisa, recomeçou dificilmente a sua marcha, arrastando os pés descalços pelo pó cinzento, único solo deste mundo.

As imagens tinham desaparecido da sua memória e, a única coisa que conseguia balbuciar era o nome desconhecido de seu senhor perdido antes do Tempo que nunca houvera achado.

 

 

(continua)

 

desmotivada
 
ficção, livros
publicado por lazulli às 10:13
Segunda-feira, 17 de Setembro de 2007
2009-02-28 08:16:23
 
 

 

 

 

EscritoPorLazulli lazulli às 17:22
link do post | comentar | AdicionarAosIntemporais

UmaEstranhaNumaTerraEstranha


lazulli

sempretriste

. 6 seguidores

VerNaCasaDeCristal

 

Intemporais

... cega ...

Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


SonsDaMinhaAlma

SonsDaMinhaAlma

Setembro 2017

Janeiro 2017

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Abril 2016

Março 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Junho 2013

Dezembro 2012

Outubro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Janeiro 2012

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

EscritosRecentes

cristal

Quando a Natureza fala ma...

,,, bicéfala,,, a Serpent...

em luta pela liberdade

São lágrimas, senhor, são...

alma

A Promessa

... desisti

manto negro

... vivo em Tiamat?!

... do livro de Dzyan...

Ming's

O Universo em mim

Tentação

Quem Criou Deus...

LeioEstes

AsMinhasFotos/Imagens

DireitosDeAutor

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. OsEscritosDesteBlogEstãoRegistadosNoIGAC Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. DireitosDeAutor É expressamente interdita a reprodução parcial ou integral de todos os escritos deste blog por qualquer processo, incluindo a fotocópia e a tradução e transmissão em formato digital. Exceptua-se a reprodução de pequenos excertos para efeitos de recensão crítica ou devidamente autorizada por escrito pela AUTORA do Blog CasaDeCristal, lazulli. Peço desculpa aos que me lêem por ter que ser assim e obrigada. lazulli - (inp) M.D.L.M.D.F.D.C.B.

NoPlaneta

Flag Counter 34 561

ÚltimasMemórias

Bem Vindo à CasaDeCristal, paulo joséConsegues exp...
paulo jose juliopra ke brincar com santo nome de d...
Vasconcelos.... como esqueceria eu, o seu blog, on...
Saúdo o seu regresso com saudade. Desejo-lhe os ma...
Parabéns pelo seu blog, muito interessante. Estou ...

subscrever feeds

TraduzirOBlog

Google-Translate-Chinese (Simplified) BETA Google-Translate-English to French Google-Translate-English to German Google-Translate-English to Italian Google-Translate-English to Japanese BETA Google-Translate-English to Korean BETA Google-Translate-English to Russian BETA Google-Translate-English to Spanish
Google Translation

OsQuatroElementos


glitter-graphics.com PorqueAVerdadeNãoSurge AHumanidadeChoraPeloSangueDerradoDosInocentes