Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

Mary Paz - Segundo Capítulo (3)

(continuação)

 

 

 

III

 

 

 

Ao longo dos dias ia-se recordando dos sítios onde por vezes a levavam, das suas caminhadas solitárias por uma ou outra floresta do mundo, pelos locais de entrada de acesso a outros mundos e outras existências paralelas às do poderoso homem de saber pequeno, condicionado e deturpado, que preenchia a vida até ao limite de si mesmo, numa indiferença aparente, como se desse modo tivesse o poder de fazer desaparecer a sua própria origem. E o Espaço, visivelmente longínquo, nunca ficava de fora na sua fuga para o que era realmente seu e onde de verdade, pertencia e se sentia pertença, no seu todo. Lugares aparentemente Sem Tempo que existiam firmemente entrelaçados, nas cordas do mundo A Intemporalidade de alguns destes lugares, assustavam-na ou entristeciam-na, quando não a faziam feliz, perante o seu total desconhecimento por parte dos que insistiam força-la a uma igualdade física, mental ou emocional, que ela sabia muito bem não existir, entre ela e o mundo que não escolhera. Séculos inteiros corriam velozmente para a frente e para trás, mostrando-lhe na sua própria língua e condição o quanto o homem vivia enganado. Nas curtas paragens que lhe eram amorosamente cedidas, normalmente pelo companheiro do momento, caso estivesse presente, podia observar um ou outro humano já não existente no seu tempo real e saber porque e para que vivia ele, fundamentalmente. Quando assim não era, aparecia inexplicavelmente num qualquer outro lugar do mundo, normalmente em conflito e, doía-lhe todas as almas do mundo inteiro por nunca interferir impedindo esta ou aquela decisão menos humana e sim se limitar a anuir aos quereres presentes. Como se de algum modo, apenas ali se fizesse presente para testemunhar. Duma das vezes, a dor acompanhara-a nesse estágio de existência e ainda pronunciou algumas palavras, tentando que estas tivessem efeito, mas... ouviu uma simples e temerosa certeza por a saberem mentira. Limitou-se a anuir, dizendo-lhes que a responsabilidade do acto que estavam prestes a cometer seria deles. Esgotada, descansava triste por tudo saber e nada fazer. Nunca entendera nada de si. Nem nunca percebera porque podia tudo e não podia nada, tornando-se na mais frágil e desprotegida criatura humana, que a única coisa que desejava, era viver a dimensão do Seu Amor Perdido.

 

Içada nos Ares e transportada para os lugares mais inimagináveis e intangíveis,  ia sentindo em simultâneo com a dor e sofrimento, a liberdade silenciosa da sua essência Única, resguardada em qualquer lugar onde o Tempo ainda não tinha penetrado. Uma das vezes ao cruzar-se com uma pequena romaria, onde, um pequeno grupo de pessoas caminhava sobre uma calçada de pedras largas e escorregadias, foi-lhe permitido olhar o pensamento de um deles e a sua razão de existir. Posicionada no canto do olho daquele homem alto, magro e de chapéu negro sobre a cabeça, condizente com a época em que julgava viver, um prato de comida era tudo quanto ocupava a sua mente. Vivia para comer a pobre criatura. Mas esta era uma comida rara neste século, pelo menos não ao alcance de todos. Um lindíssimo prato de marisco digno dos que existiam em abundância pelos séculos vinte afora, apareceu-lhe nítido e soberbo que até ela sob a condição de uma ínfima criatura se impressionou com a imaginação deste pobre homem, que existia unicamente para comer. Mesmo vagueando neste Paraíso, longe de qualquer semelhança com o mundo ou a Civilização extinta, essa imagem continuava retida nas retinas da sua memória. Ficou triste nesse dia pela pobreza imensa da mente daquele homem que caminhava direito no meio do grupo de aldeões em dia da adoração de qualquer santo inútil que lhe fora posto, ali mesmo, para o poderem adorar, na falta da Promessa de um Deus Vivo e desse modo, os seus magros recursos poderiam ali serem deixados como oferenda às benesses obtidas, não através das suas orações mas nas suas disparatadas rezas; mantras sem significado ou aproximação alguma à verdade de si mesmos. Mas tinha pena dos homens e dela mesma, por o mundo se manter indecifrável para sempre. Lembra-se que pensou: - "Há... se os homens soubessem como é viver deste lado .já estariam todos aqui." - Queria ter podido falar com ele, mas uma suave pressão da mão que não largava a sua, retirou-a dali. Tinham-lhe mostrado mais uma condição humana. Dito mais um porquê. E... o voo continuou, para outras paragens.

 

Ia-se recordando de tudo o que vira e de tudo quanto lhe fora transmitido por entre a penumbra dos mundos. Dos ataques das várias formas de vida e dos resgates, a essa luta desenfreada pela sua alma. Sons, luzes, mundos, formas... o que do Espaço chegava e se mostrava. Um manancial que continha o Tudo no Nada. O medo e felicidade de todos aqueles instantes. O tempo ia correndo fora de si enquanto ela continuava a brincar com o mundo que viera com ela e nunca a abandonara Um mundo que cresceu  e se expandiu tanto que não cabia mais dentro de si. Tinha necessidade de o procurar no mundo dos homens. Perceber porquê. Porque os homens não lhe tinham acesso de modo natural. O que para ela era tão simples como respirar, nos seus aparentes iguais eram necessários truques e manusuldefrança.tifais convenientes para o vislumbrarem sem certezas. O que os imbuía de uma arrogância de iluminados que a irritava e os fazia preza fácil de crenças místicas tortuosas onde passavam a ser os eleitos do Saber que diziam Oculto e só a eles pertenci. Únicos e orgulhosos do mistério adquirido, iam reconhecendo no seu caminho apenas quem lhes mostrasse humildade de nada ser e os reconhecesse como os especiais da vida miserável a todos. Agarrados a Eliphas Levi, Salomão, Mebes, Ordens Místicas e toda a sorte de saberes ainda pouco claros, iam erguendo as mãos aos mesmos deuses tentando neste processo chamar os outros, como se tudo isto, não fizesse parte da Matéria Viva e de conhecimentos deformados. A Essência começava a ser mais uma Palavra vã onde tentavam misturar a sua Natureza, como se ela não tivesse já sido devidamente penalizada aquando o choque do Universo duplo. E deste modo se ia continuando a forçar a união inquebrável destes dois mundos, Matéria e Essência, como a Grande e Inseparável Obra da Vida, onde carne e espírito passavam a ter a mesma natureza e o que emanava destes dois poderosos poderes, seria uma energia que estava em tudo como tudo estava em si. Todos os caminhos iam dar às mesmas razões e motivações de sempre. Motivo mais do que suficiente, para que eles mantivessem para sempre fechado o Universo Essência na Esperança de um Retorno Contínuo de todas as partículas dispersas. Sabiam que o seu próprio poder habitava as mentes mal esclarecidas que existiam por todos os Espaços e, assim sendo, eram demasiado poderosas para se poder expor a Verdade.  Porque no meio de tão mau conhecimento continuariam a servir sem saber o seu mais mortal inimigo. A Matéria Inteligente. Aquela que hoje, numa dualidade dolorosa que priva a alma do amor, da verdade e da liberdade plenos, os arrasta até chegar o seu processo de reciclagem e aperfeiçoamento, para regressar vitoriosa a uma Nova Vida. E como é ainda infinito o número dos que aguardam esta prisão, a Batalha Final continuava adiada por muitos milhões de anos. Finalmente entendia porquê. Só não entendia que espécie de criatura era ela nem qual a sua utilidade num mundo que nunca foi seu. Sabia do elo que a mantinha presa mas nada a faria aceitar as suas leis. Viva ou morta, sempre procuraria o seu mundo verdadeiro e as suas gentes. Quanta diferença se foi instalando e acentuando à medida que ia despertando para um mundo que todos queriam seu. O mundo da realização concretizada. Quando ela nem chegava a ser. O esforço era grande quando "abria" os olhos e os tentava entender. Doía-lhe traduzir as suas mentes. Eram-lhe incompreensíveis. Totalmente desconhecidos. Torturavam a sua alma. Enquanto o intangível a continuava a circundar cautelosamente, sentia-se descolar dele que a ia olhando tristemente. Sempre soubera que não fora nunca por vontade deles esta sua tentativa de entendimento. Temiam essa sua necessidade. Sabiam das consequências que pesariam sobre si se permitisse que uma membrana se ergue-se entre ela e eles. Tinha consciência da sua luta por ela e do seu amor. Mas ela amava demais. Queria mostrar a todos o seu belo mundo. Queria acreditar, que este, era pertença de todos. Não recolheu em si todos os avisos. Não prestou atenção a todas as recomendações. Não se aceitou escolhida. Diferente. Com o direito único a esse amor. Porque no seu mundo a diferença não existia. Mas, nesta mistura de mundos com que nascera, não os tinha conseguido conciliar ou isolar uns dos outros. Muitas vezes pensava que eles se enganaram ou descuidaram perante tamanho Poder. Mas, talvez não, talvez apenas só a tivessem querido proteger por a saberem num mundo não seu. Tinha consciência hoje da sua enorme falha. Tinha consciência de quanto os magoara e de quanto fora penalizada por si. O seu mundo chorava a sua ausência. E ela tinha ficado para sempre triste, sem ninguém que considerasse verdadeiramente digno de ser herdeiro de um saber antigo e sempre presente. Mas um saber que era só dela e deles. De mais ninguém. Falhara por estar só. Longe do Amor de que era feita.

 

 

 

Agora tudo era tarde demais. Para todos e para ela. O mundo acabara da pior forma e, ironia do destino, ela sobrevivera-lhe e pisava neste instante um mundo que parecia ser pertença de ambos os mundos. Mas a angústia, a agonia, não desapareceram. Dentro dela tudo continuava igual. A mesma necessidade da procura da verdade. Quem era ela e porquê?! O que a distanciava tanto dos seus semelhantes?! Tinha que existir uma razão. Uma explicação. Um motivo. Por tudo isso e muito mais que isso, decidira procurar numa cruzada sem fim, a voz que lhe explicasse porquê. Não se contentou com a pura magia do seu mundo e  foi em busca do seu Destino. Quanto aprendeu. Quanto soube. Mas que preço pagou por esta afronta àqueles que continuam a querer os mundos fechados. Sacrifício inútil o seu.

 

Fechava os olhos e deixava-se guiar pelo instinto ou pelas presenças que toda aquela flora colorida mantinha, na esperança de voltar a entrar nesses mundos e ser de novo ameaçada e logo o intangível se mover a recupera-la, dobrando-a e recolhendo-a no Nada. Sentir mais uma vez a sensação do Não Ser. Atravessar as camadas da existência como potente foco de luz azul brilhante e aparecer em frente a anciões de fantásticas vestes coloridas. Aqueles que lhe falavam sem voz. Viver novas metamorfoses e vê-lo aparecer ali diante deles repreendendo as ousadias à pequena insignificância. - "Torno-te a ver?!" - "Não. Depende de..." Qual magia, inexistente. Qual alucinação? Qual fantasia? Tudo lhe atravessava a mente. Tudo desfilava dentro de si como marca gravada a fogo em cada célula de que era composta. Devia ter sido feliz. Feliz como nenhum mortal o tinha sido. Vivera uma vida sempre ligada, realmente ligada, aos mundos inatingíveis. Fora amada por eles. Fora ternamente conduzida pela mão de um amor invisível, sempre presente.

 

Mas ela quis dar a conhecer o seu mundo. Queria ver os outros felizes. Queria que vissem a verdade e vivessem todas aquelas coisas e sorrissem. Ajudar o mundo. Salvar o mundo.esta.jpeg Quando ninguém lhe pediu para fazer isso. Bem pelo contrário.  Disseram-lhe sempre para não acreditar no homem. Para nunca lhes ceder. Muitos deles eram os senhores de rostos velados, cujos rostos estão ocultos. Os seres humanos que estão sobre a terra, não os podem reconhecer por os desconhecer no meio de si. Aqueles que moram na perpetuidade e têm ligações aos senhores de milhões de anos, rodearam-na sempre de um mundo inatingível mesmo por aqueles que estavam perto dela. O que foi então que lhe aconteceu? Quis ser humana. Quis dar. Quis acabar com o mistério para todos, mas era pequena demais por entre tantos poderes, de todos os lados. Era uma maldição este mundo silencioso que a habitava. Sentia-se só, neste mundo com o dela a espreitar-lhe a alma desconhecida. Não se conformou com tão grande castigo. Desejou ser nada. Saber nada. Nada ter. Apenas ser. Ser indiferente como aquele enxame que se movimentava desenfreadamente e palpitava irrequieto, por todo o lado, numa ânsia de viver que ela não entendia. Por isso sempre se sentira uma estranha numa terra estranha. Uma intrusa em mundo alheio.

 

 


 

Mas também se lembrava da vida. Da vida dos outros. E doí-lhe o seu sofrimento. Porque quanto à dela, não lha tinham conseguido entregar. Sempre a recusara porque não era dela. Nada lhe pertencia ali. Nada era seu. Nada tinha a ver consigo. Limitou-se a chorar e a sorrir. A tentar ver os outros felizes nas suas crenças. Sentiu-se sempre pequena. Demasiado pequena, perante um mundo tão grande e tão cheio de tudo.  E, como nada podia fazer; esperou, esperou, esperou, para no fim das contas ver o fim da civilização que abominava. Que terrível desfecho para mais uma Civilização. De que valera o seu silencio, a sua dor. De que valera tudo? - De nada. Magoavam-na as recordações do manifestado. Assim como a magoavam as manifestações metafisicas. Porque com ela tinha que ser assim e não doutra maneira? Nem aqui onde tinha por única companhia um mundo colorido que fervilhava em torno de si, contente com a sua presença que se, se descuidava, passava a ser pétala eterna daquele chão. Tinha que persistir até ao fim. Tinha que saber. Mas sentia-se a coisa mais triste do mundo. Aquela que nada tem. Que nada é e que a ninguém pertence. Maldito castigo. Haveria de encontrar os responsáveis. Mas por enquanto, continuava à mercê do Eterno Desconhecido. Qual deles?! Isso é o que esperava saber daqui para a frente.


EscritoPorLazulli lazulli às 22:26
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