CasaDeCristal, lazulli, eu, mary paz, humanidade escravizada, a grande mãe, 2006, 1990, poesia. livros
Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

Mary Paz - Primeiro Capítulo (14)

(continuação)

 

 

Quando despertou, o espectáculo que viu arrepiou-a dos pés à cabeça. Encontrava-se empilhada num monte. Sim, um monte! Mas de carne humana. A medo e sem compreender de início o que aquilo significava, moveu-se lentamente tentando pôr-se de pé. Tropeçando nos corpos na tentativa de se levantar, suas mãos seguravam-se aos seus inanimados companheiros de infortúnio, fazendo alguns deles soltar um leve gemido quase que imperceptível. Quando finalmente se conseguiu manter em pé, o pavor de descobrir onde se encontrava paralisaram-na por completo. Não conseguia afastar os olhos daquele quadro tão horripilante. Corpos e corpos, empilhados em cima uns dos outros como que atirados à sorte, jaziam por uma extensão de talvez dois a três metros. E estavam todos nus! Lentamente, quase não querendo acreditar no que estava a ver, baixou os olhos pelo seu próprio corpo e o que temia era verdade, ela também estava nua e o tornozelo liberto da pulseira que os controlava, como todos os restantes “mortos”. A verdade é que assim como ela, nem todos estavam completamente mortos, pois tinha ouvido gemidos que saíam da pilha de corpos de onde se tinha acabado de libertar. Mas isto não parecia ter preocupado quem os tinha depositado ali. Pois que para além de os libertarem das pulseiras electrónicas, lhes haviam retirado os míseros trapos que os cobriam sem se certificarem se iam ou não continuar a precisar deles para se agasalharem .

Gelada de frio, deu uma olhadela à sua volta e nova surpresa a aguardava. Aliás, já estava tão habituada às surpresas deste novo mundo, que ficaria admirada se de cada vez que abrisse os olhos, por acaso, não tivesse no mínimo uma pela frente. E para não fugir à regra habitual este novo mundo, pois parecia que isto pretendia ser um novo mundo, estava salpicado por aqui e por além de pequenas tendas verde azeitona, que não albergariam com certeza mais de duas a três pessoas.

Todas as construções tinham ruído no deflagrar e bem se poderia dizer que a maioria delas construídas, prevendo grandes cataclismos. Entretanto estas pequenas tendas, aparentemente tão frágeis, aguentavam firme, parecendo desafiar o mundo destruído lá fora. Estranho... parecia que alguém se havia preparado para a destruição do mundo, armazenando para o que desse e viesse este manancial de tendas de campanha. Por mais que tentasse, não conseguia explicação para esta visão que se estendia silenciosa  diante de seus olhos, por uma extensão incansável. Mas de uma coisa tinha a certeza, é que tudo isto era bem mais real do que ela. Muito mais. No espaço talvez de um ano – quem saberia ao certo? – já conseguira ver tentativas de um reerguer da sociedade, mas de um modo tão vil, tão inumano, que já não sabia se o depois não seria bem pior que o antes para os fracos humanos que continuavam a existir ao sabor de quem quisesse fazer deles o que lhe apetecesse. Se nada aprenderam antes, não era com o que Mary se tinha apercebido existir que iam aprender fosse o que fosse. Continuariam eternos ignorantes à mercê de um poder maior. Desde que as forças não lhe faltassem, Mary, tentaria perceber o mundo que estes eternos senhores do poder, pretendiam construir de novo e quem desta vez pensavam sacrificar para poderem continuar a existir. Se tinha que morrer às mãos deles, queria saber como e porquê, antes do momento que lhe destinavam.

 

(continua)

 

sem caminho a percorrer
eu, ficção, livros
publicado por lazulli às 17:46

Domingo, 3 de Setembro de 2007


EscritoPorLazulli lazulli às 16:52
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