CasaDeCristal, lazulli, eu, mary paz, humanidade escravizada, a grande mãe, 2006, 1990, poesia. livros
Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

Mary Paz - Primeiro Capítulo (12)

(continuação)

 


Um por um, foram deslizando na frente de um homem alto que se resguardava dentro de um dos compartimentos da tenda, sentado numa cadeira em frente a uma pequena mesa de apoio. Sobre esta era visível (apesar da separação do plástico mais ou menos opaco não permitisse grande visibilidade) um pequeno aparelho, que rodava da mão do homem para o tampo da mesa e do tampo da mesa para a mão do homem, com uma incrível velocidade. Através de uma pequena abertura horizontal que rasgava o plástico de ponta a ponta, os prisioneiros iam colocando uma de suas mãos em cima da mesa e eram marcados com uma qualquer numeração, que de onde se encontrava não conseguia distinguir. Depois eram levados rudemente para uma outra divisória, que continha num dos cantos, no chão, uma série de pulseiras electrónicas, onde um outro homem lhas colocavam em torno do tornozelo, através de uma pequena abertura rente ao chão, onde colocavam um pé, sobre um pequeno estrado de madeira velha e gasta. Chegada a sua vez de se aproximar do primeiro guiché, levantou os olhos e deparou com a indiferença personalizada que de mão enluvada, ao ritmo impressionante que já tinha verificado, com a maquineta minúscula já com a numeração devidamente alterada, lha cravou sobre as costas da mão que jazia poisada sobre a mesa. Ao sentir o rude contacto da maquineta quente, um grito escapou-se-lhe, indo bater contra as frágeis lonas que ondulavam ao sabor dos ventos agrestes. Os carrascos, enfurecidos com a sua manifestação de dor, agarraram-na pelos cabelos que ainda mantinha e empurraram-na dali para fora, arrastando-a como a um animal, até a fazer parar junto ao pequeno estrado de madeira velha e puxarem para cima dele uma das suas pernas, onde em torno do tornozelo, lhe colocam também a pulseira electrónica e simultaneamente digitam num computador, o número de registo do código de barras com que a tinham marcado. Na realidade, de todos quanto ali estavam a ser marcados com o código de barras, fazendo lembrar qualquer produto devidamente identificado e legalizado, só ela se havia manifestado à actuação daquelas aberrações ainda existentes, o que provocou neles, uma ira incontrolável, como se o seu grito tivesse perturbado o seu zeloso trabalho. Não entendeu porque é que só ela tinha reagido, quando fora marcada, o calor que emanava da máquina tinha sido de tal ordem, que sua mão havia ficado num estado deplorável, com a numeração e a devida listagem, toda em relevo. Ao toque do ferro quente, sobre a pele, qualquer um desde que sensível, teria sentido a mesma dor que ela sentiu e ter-se-ia manifestado de algum modo. Talvez toda esta gente já tivesse perdido toda e qualquer sensibilidade e verdadeiramente já nem existissem.

Ficou estendida no solo, até os ver desaparecer, com receio que a voltassem a molestar.

Depois que viu o veículo em andamento, após os terem inexplicavelmente abandonado ali, completamente indiferentes, levantou-se e afastou-se em direcção a norte, para tentar perceber onde realmente estava. Espalhados em todas as direcções possíveis e imagináveis até se perderem de vista, seres humanos rastejavam sobre si mesmos, talvez com dores ou com fome, quem sabe? Algo estranho se passava por estas bandas. Não fosse aquele enorme movimento de gente que agonizante se movia, dificilmente, por todo o lado e diria que a guerra não tinha passado por ali e a civilização se mantinha intacta dentro daquele gradeamento que se estendia por quilómetros. Era um absurdo num mundo daqueles existir tal prisão, mas era uma realidade a que não podia fugir. Não sabia propriamente o destino que lhe estava reservado, mas pretendia saber o que estava a acontecer ali, porquê e para quê. Se isto era a reconstrução do mundo, porque então não os tinham tratado melhor? Não chegou a ser acusada de nada, nem nenhum dos que tinham sido presos aquando a ela. Então, porque os trouxeram para ali e o que pretenderiam deles?

Caminhou cuidadosamente por entre toda aquela multidão de mutilados, com a esperança de encontrar uma resposta para tudo aquilo ou talvez quem sabe, encontrar Virgínia.

Repentinamente os seus pensamentos foram interrompidos bruscamente por um “homem” robô, que deslizava em sua direcção. Só agora se tinha apercebido da presença deste novo personagem, parecido sair de um filme de ficção científica. Nunca o terror e a ficção tinham estado tão ligados numa perfeita harmonia de esforços, para um fim comum. E não era só este andróide, que deslizava direito a ela, que existia por ali. Moveu os seus olhos em várias direcções e encontrou-as por todo o lado, enormes torres de vigia plantadas por todo o campo assinalavam a sua presença. Mudas, as torres de vigia emitiam um sinal verde e vermelho ininterruptos, que pareciam conduzir o andróide para qualquer local do enorme campo. Assim conseguia perceber porque não paravam as pessoas um segundo na execução das tarefas que lhes tinham sido impostas.


(continua)

 

longe de tudo e de todos

ficção, literatura, livros

publicado por lazulli às 16:00

Quinta-feira. 23 de Agosto de 2007


EscritoPorLazulli lazulli às 21:47
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