CasaDeCristal, lazulli, eu, mary paz, humanidade escravizada, a grande mãe, 2006, 1990, poesia. livros
Sábado, 29 de Novembro de 2008

Mary Paz - Primeiro Capítulo (10)

 

(continuação)

 

 

 

 

Se tinham passado muitos ou poucos dias depois do dia final, era coisa de que não se tinha apercebido. O tempo era uma constante agonia para todos eles. Os mesmos escombros, os mesmos monstros, a mesma fome, o mesmo olhar vazio e perdido... Tudo morria lentamente... A vida interior fugia de cada Ser. As lutas travadas pelos moribundos passeantes em busca de comida, tornava-se-lhe cada vez mais difícil de suportar. Por si, tinha deixado que seu corpo ficasse estendido por ali, servindo de pasto àqueles novos animais famintos. Mas os seus continuavam indefinidamente silenciosos, à espera... sempre à espera de algo. Tinham já esgravatado a terra, acabando por encontrar a entrada que conduzia à cave que de nada lhes havia servido, mas que neste momento, resguardava-os a todos um pouco mais do frio agreste que se fazia sentir. Para ela, era o frasco que lá tinha escondido há anos atrás.
Deixou que dormissem e misturou o veneno com a água venenosa que vinham a beber, desde o dia do holocausto. Uma água contaminada pela radioactividade que lhes amargava a boca e os consumia lentamente. Para Mary, entre morrerem da radioactividade existente na água ou do cianeto que acabava de lhe adicionar, só havia uma diferença: é que este último, seria bem mais rápido a agir e dar-lhes-ia a libertação do sofrimento que vinham a sentir. Fá-los-ia, talvez quem sabe, existir numa outra vida, num outro local. Daí que não sentia em si o acto propriamente dito que estava a cometer. Um só pensamento, existia dentro dela: ali, não os deixaria viver mais. Nunca mais!
Todo o tempo manteve-se desperta, como se o seu corpo se tivesse reconstituído por si só e sua mente estivesse no auge da sanidade mental. Consciente do que pretendia fazer, aguardava o momento do despertar de todos eles. Contudo, uma coisa a preocupava: a ausência de Virgínia. Não sabia se esta regressaria ou se mesmo teria possibilidades de voltar. À dias que tinha sumido e sabe Deus qual o motivo que a tinha levado a aventurar-se em tão dura “selva”, onde as probabilidades de regressar eram ínfimas e mais do que isso, era o que lhe poderia acontecer misturada com os famintos de tudo que deambulavam um pouco por todo o lado.
Apesar de Virgínia não se encontrar presente, não adiaria por mais tempo a sua decisão de os libertar daquele sofrimento. Com ela ou sem ela, dar-lhes-ia a água a beber quando acordassem. Ia finalmente fazer algo pelos que amava na Terra. Ansiava o seu despertar e as suas mortes, como se soubesse que faltava pouco tempo para romper a aurora desaparecida e um Sol quente e brilhante, viesse inundar todas as suas almas.
A espera para este “novo dia” surgir nas suas vidas, parecia-lhe interminável, e as lágrimas iam deslizando silenciosas pelo que lhe restava do que outrora, tinha sido um rosto belo. Enquanto esperava, tentava imaginar Virgínia lá fora, provavelmente em busca de alimento. No seu íntimo, temia que Virgínia não entendesse no regresso, o porquê de sua loucura (pois Virgínia, regressaria, sabia-o). Esperaria pelo seu regresso e, partiria junto com ela, para junto dos seus. Além de serem da mesma estirpe, Virgínia pertencia à mesma essência que ela, por isso mesmo, acabaria por ceder em partir. Esta desgraça, não poderia tê-la alterado tanto assim, que a impedisse de partir ou mesmo de não entender o seu acto “homicida”.
O despertar de todos eles, foi lento e penoso. Trôpegos, tropeçando em si próprios, viu-os em busca do seu olhar. Uma centelha de entendimento, fazia-se reflectir em todos eles, como se soubessem já da sua paz, ou do seu crime.
Enquanto lhes ia dando a beber a água, anteriormente envenenada por ela, uma centelha de vida e esperança, raiava-lhe nas retinas humedecidas.
Depois de verificar, que todos eles tinham já bebido uma dose suficiente para deixarem de existir ali, disse-lhes:
- Amanhã reunir-nos-emos num outro local e numa outra vida. Assim o amanhã recomeçará a existir para todos nós. Até lá...
Nem uma palavra saiu de qualquer um deles, como se eles próprios fossem cúmplices do assassinato de si mesmos. Contorceram-se de dores, com escassos segundos uns dos outros, e os seus gemidos lancinantes fizeram-na odiar aquele veneno tão lento na sua resolução de retirar a vida a quem a tem e não mais precisa dela.
Esteve junto deles até aos últimos minutos finais de cada um, pois que o espaço de tempo, de umas mortes para outras eram bastante escassos, talvez pela fraqueza que já possuíam ou mesmo pela dose excessiva que tinha misturado na água que tinham ingerido. Mas o momento de cada um deles tinha chegado por fim. Viu-os partir, cheia de dor e saudade, com uma incerteza que parecia querer arrancar-lhe a alma fora do peito, pois não sabia se realmente os retornaria a ver, ou mesmo se realmente existiria um amanhã para todos eles. De uma coisa tinha certeza; era que finalmente eles tinham deixado todo aquele martírio em que viviam e não mais sentiriam as dores da carne dilacerada que os cobria e agonizava, nem tão pouco estariam sujeitos a comerem outros Seres, companheiros do mesmo infortúnio, ou a serem comidos por estes mesmos, com a mesma necessidade. E quando o último suspiro se deu, os gritos lá fora já não se faziam ouvir. O silêncio tinha descido sobre aquele local lúgubre e funesto, mas neste momento cheio de paz e harmonia.
Por muito tempo, coabitando com a morte, ficou a olhar os corpos inertes, que jaziam pelo escasso espaço da cave, sem saber o que fazer. O recipiente da água, guardava ainda veneno suficiente para ela e Virgínia, mas esta tardava em vir e, o cheiro da morte, começava a tomar posse de si, enlouquecendo-a. Não poderia fazer mais nada, senão esperar que Virgínia regressasse, para poder junto com ela, partir para junto dos seus. Não! Não a deixaria sozinha neste novo mundo. Já lhe bastava os remorsos de ter perdido a filha, que com toda a certeza já não fazia parte deste mundo. Não seria capaz de partir sem ela. Teria que aguardar pela sua vinda, nem que isso representasse para ela, o horror do que a cercava, ou o não chegar a ver o Sol nascer no dia seguinte.
O tempo passava impunemente e Mary receava ter que abandonar o parco refúgio, na tentativa de encontrar o paradeiro de Virgínia. Neste momento, depois de tão longa espera pelo seu regresso, tanto fazia que a encontrasse morta ou viva; tinha é de a encontrar! Ela é que não poderia tomar nenhuma decisão, sem saber se Virgínia neste momento já fazia parte de um outro Mundo, ou se ainda se encontrava neste. Já tinha perdido a sua filha para sempre não se poderia permitir, perder também a irmã.
Decidida, levantou-se, sem antes deixar de ter o cuidado de camuflar o recipiente da água e de escrevinhar num papel velho com uma caneta que ainda escrevia de tanto que foi poupada à sua tarefa, uma mensagem para Virgínia: “Fui à tua procura para te explicar porque envenenei a nossa família. Mas, não é difícil perceberes porque o fiz. Não quis que sofressem mais. Como último acto realizado neste pérfido mundo pretendo que me acompanhes numa viagem ao encontro de todos eles. Por isso te vou procurar. Se chegares antes de mim, aguarda-me”.
Com um último olhar aos corpos, já em decomposição, de seus amados pais e irmãos, dirigiu-se para a abertura do abrigo, quando repentinamente, foi surpreendida por dois homens que acabavam de irromper abruptamente pela cave dentro, sem que ela tivesse tempo de reagir ou entender o que se passava. Com uma rapidez que lhe era inimaginável, sentiu um cano frio ser-lhe brutalmente encostado ao peito e um olhar gélido não desviar dela nem um instante, como se ansiasse que ela se movesse, para a poder perfurar de lado a lado com a arma de fogo que lhe dava toda aquela segurança. Mas a verdade é que a surpresa tinha dado lugar ao medo, e Mary só desviava o olhar de um lado para o outro para tentar perceber quem eram e o que queriam, resposta que não demorou a chegar à sua mente confusa mas lúcida, no que dizia respeito a esta nova verdade, verdadeiramente surpreendente e inesperada. Qualquer um deles, tropas de um Governo qualquer, trajavam camuflados militares de tons esverdeados que bem conhecia e que deixavam perceber as formas de seus corpos atléticos. Sobre seus rostos, uma máscara deixava transparecer os olhares frios, possuindo uma atroz ferocidade. Viu-os remexerem os corpos inertes com os pés e removerem todo o local, retirando tudo aquilo que à priori lhes parecia interessar.
O medo e a esperança apagaram-se-lhe de repente, ao ver um dos homens esvaziar para o chão a água contida no recipiente que tinha escondido. Desesperada, vê a sua única esperança de se juntar aos seus, desfeita. Agora teria que ficar neste mundo horrível e participar das suas atrocidades. Queria gritar-lhes que bem no fundo dela mesma, existia como gente. Gente como eles! Que apesar da sua aberração física, ainda possuía uma alma capaz de sentir e um cérebro capaz de pensar. Mas nenhum som saiu de sua garganta. Todo o seu pensamento sofria um bloqueio, quando trazido até junto de suas cordas vocais, como se impedido por uma força invisível, pois não ouviu a sua voz, quando falou, mas sentiu-a. Mas era receio o que ela sentia, era medo, medo deles. Desses homens que de repente surgem do nada e a empurram porta fora, como se ela não passasse de um verme nocivo que tem que ser eliminado. Estava-lhe a ser difícil entender o seu próprio pensamento.

 

 

(continua)

 

um sininho
livros
publicado por lazulli às 16:01
Terça-feira, 31 de Julho de 2007

EscritoPorLazulli lazulli às 23:41
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