CasaDeCristal, lazulli, eu, mary paz, humanidade escravizada, a grande mãe, 2006, 1990, poesia. livros
Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

Mary Paz - Primeiro Capítulo (9)

(continuação)

 


Procurou com o olhar, por aquele amontoado de carne humana, na esperança de vê-la, mas o infortúnio tinha tendência a manter-se ou mesmo quem sabe a aumentar. Não a encontrou ali. Ela não estava lá! Lhia, continuava perdida, algures, chorando pela mãe que não chegava. A lembrança de Lhia aaumentava o sofrimento dentro de si. Onde estaria o seu Ser indefeso? Quem a protegeria daquele pesadelo? Repentinamente, sentiu a espada nas mãos e uma raiva incontrolável apossou-se de si. Era Lhia que ela deveria ter procurado. Era Lhia que ela deveria ter encontrado, em vez de a salvar a ela, devia ter encontrado a sua filha. Antes mesmo de penetrar nas ruínas onde aguardavam a sua chegada, arremessou a espada para longe. Não tinha que cumprir nenhum destino. Mais uma vez, fica por cumprir, os desejos dos eternos desconhecidos. Sem Lhia, ela não ficaria muito tempo numa vida que não era definitivamente a sua e que de modo algum quereria. Eles mesmos viessem realizar os seus próprios planos. Mary não o faria. Por ela ficara e por ela partiria e, mostrar-lhes-ia que Lhia era a sua espada. A sua verdadeira espada da Verdade e da Justiça. Daria por terminado o que nunca houvera começado. O irmão olhava atento a sua manifestação de revolta e parecia entender o seu comportamento. Pegou-lhe na mão e dirigiram-se para o interior/exterior, porque tecto só o enegrecido céu que os cobria e, ficaram de frente a todos aqueles olhares vazios.

Ao olhá-los, Mary, sentiu como que uma vela, que acabada de acender, repentinamente se extinguia num lugar isento de qualquer tipo de luz.

Os Deuses estavam a ignorar a sua dor e o seu apelo. Tinha perdido Lhia para sempre e como recompensa entregavam-lhe a família destroçada. Quase não vivente. Uma centelha de realidade atravessou sua mente perturbada pelos últimos acontecimentos e, arregalou os seus olhos desmesuradamente, num animal morto que jazia junto deles. A carne já dilacerada, mostrava ter sido um instante antes, o festim de alguém ou de alguma coisa: Deles! A verdade, é que esta carne que jazia diante dela, tinha servido para os manter vivos.

Só neste momento, se deu conta da dimensão de tal caos.

As entranhas de seu corpo, moveram-se e soltaram para fora, a agonia que sentia. Os seres que mais amava, os que lhe pertenciam directamente na Terra, tinham ingerido aquele animal imundo. Eis a sua recompensa por defender toda a vida a Verdade e a Justiça. Roubam-lhe a filha indiferentes à sua dor e transformam a sua família em semi viventes. Uma ira, contida, cresce dentro dela. Havia de se vingar da vida. Da vida dos homens, da vida da Terra e da vida dos deuses. Havia de se vingar defrontando todas as forças materiais do universo. Um dia... Um dia iria conseguir isto e nunca mais ninguém decidiria sobre o destino fosse de quem fosse.

Virgínia levantou-se lenta mas dignamente e dirigiu-se até ao sítio onde ela se encontrava. Fitou-a bem dentro dos olhos. Seu olhar transmitiu a claridade que aquele lugar lubregue não conseguia ter com a luz do “dia”. Parecia que seu olhar transportava, todos os raios solares do Sol saudoso do passado-recente e que parecia renascer na claridade e no calor dos olhos de Virgínia. Quase a abraçaria como quando crianças, naquele tempo ido, se não fora a voz de Virgínia ter soado distinta, sobre todo o silêncio existente.

– O Mundo acabou, como disseste um dia... Mas também como disseste, continua... E, nós?! Nós restamos não só para assistir, mas também para participar deste caos, continuando a existir. Não nos foi dado o privilégio de não existir aqui, neste momento. O amanhã já não existia. E o ontem?! É como se nunca tivesse existido. Abominas essa carne pejada no solo, que nos está a alimentar; mas ainda não nos comemos uns aos outros, como já o estão a fazer todos aqueles que como nós tiveram o infortúnio de sobreviver. Come pois do que resta do que já comemos, e mantém-te viva junto de nós. Depois de tanta gente perdida dos seus; nós continuamos juntos. Queremos-te como antes. E, queremos-te viva! Perder-te, seria um caos ainda maior do que aquele em que vivemos. E, pegando do chão a carne macilenta que restava do banquete forçado pela necessidade de sobrevivência, entregou-lha.

O toque mágico proferido pelas palavras de Virgínia, tinham tocado o mais profundo do seu Ser. Decidida, levou à boca com as mãos, a carne que lhe havia sido entregue, e mastigou como um mastim faminto, a carne que à pouco a tinha agoniado.

Todos os olhos presentes, estavam presos nos seus, trazendo até si uma mensagem de esperança. De uma esperança, num mundo que nunca sonharam poder existir, mas que acreditavam existir algures.

O sabor amargo da carne que comia, quase que rejeitado pela matéria de seu corpo – mesmo a matéria, sabendo que este alimento repugnando-a ou não, a faria prevalecer viva – provocava-lhe vómitos, que controlava dificilmente. Por instantes os olhos encheram-se-lhe de água, quase a impossibilitando de ver mesmo a pouca distância de si, os únicos mais que todos que lhe haviam tocado a existência e a tinham mantido entre tão abominável forma de vida. Todo o seu saber, todo o seu conhecimento do “desconhecido” e o amor infinito que a manteve ligada ao infinito; não tinham tão pouco servido, para poupar o sofrimento dos que mais amava na Terra. Sentia-se culpada por todos eles, como se o poder estivesse em si, para poder evitar uma catástrofe tão evidente ou mesmo tivesse a responsabilidade de tanta agonia.

Os gritos da multidão, continuavam a fazer-se ouvir por todo o lado, e pareciam correr loucamente contra todo o seu ser. O silêncio, a dor, a fome, os gritos, o medo e por fim, o amor que a levaram a “assassinar” os seus – termo que a lei punia severamente, quando ninguém tinha ficado para os punir, de um assassinato em massa de biliões de seres por toda a Terra.

Lembrava-se do cianeto... Ah! Onde o tinha arranjado mesmo? Não conseguia lembrar-se ao certo como o havia conseguido, mas lembrava ainda porque o havia escondido.

Estávamos no ano de 19...., quando o Noticiário, transmitiu ao Mundo, a notícia de que os estudantes de uma Faculdade dos Estados Unidos, estavam a exigir cápsulas de cianeto nas farmácias das Faculdades, por recearem num futuro próximo ou longo, o deflagrar de uma Terceira Guerra Mundial. Após não mais que um mês, um filme: a Teia, réplica do Day After “depois do fim”. Este filme fez com que seus olhos vertessem lágrimas de dor, receio e revolta. E, no dia seguinte... também no dia seguinte... Poucos eram os que comentavam a mensagem do filme. E os que o faziam, não aprofundavam ou sentiam a sua dor. Entretanto os que podiam fazer alguma coisa, continuavam sem fazer nada para evitar uma guerra nuclear. Muito pelo contrário, iam gastando mais e mais dinheiro em armamento, cada vez mais sofisticado, e tempo em colóquios que não os levavam a nada. Os que não podiam, mas queriam fazer alguma coisa para evitar esta evidente catástrofe, viam-se impotentes, perante uma massa humana de estupidez e presunção.

Apesar de ainda imatura e do seu ainda pouco entendimento, sobre o mundo e sobre as coisas do mundo, foi exactamente neste período que ela havia tomado a decisão de guardar o cianeto, para um futuro longínquo ou não, em que fosse necessário utilizá-lo, com aqueles que amava, para lhes poupar o horror de uma vida demasiado miserável. E o dia tinha chegado, para utilizar o cianeto à anos guardado. Sabia que o utilizaria um dia... Quando?... Quando visse os seus a sofrer de dor e desespero.
Desprezava a vida na Terra desde que nascera, por isso mesmo não lhe seria penoso faze-los ingerir o veneno, um dia que isso fosse necessário; daí que o utilizou fria e calmamente. Talvez fosse apenas mais um dia para todos eles naquele tormento, se se pode realmente chamar dia, a uma coisa que já não existe, de tal modo a noite e o dia se tinham fundido não deixando perceber, uma réstia de divisão, entre ambos.


(continua)

 

... filhos do Sol"

livros

publicado por lazulli às 16:11

Sexta-feira, 20 de Julho 2007


EscritoPorLazulli lazulli às 13:09
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