Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

2008/2009

Para todos os que vêm à CasaDeCristal

 

Nunca o tempo me foi tão ingrato para dizer o que sinto.

 

O meu desejo, com amor para todos é: 2009 mais feliz

 

( o tempo não me permite colocar o que escrevi. fica só o meu carinho. lazulli)

 


EscritoPorLazulli lazulli às 17:54
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Domingo, 28 de Dezembro de 2008

Mary Paz - Primeiro Capítulo (15)

 

 

 

 

(continuação)

 

 

Abraçada a seu próprio corpo para se proteger do frio, caminhou cautelosamente em direcção aos iglôs, contornando-os, para ver se encontrava um pano com que se pudesse cobrir. Mas não foi um agasalho o que encontrou nos seus interiores, mas um alçapão de ferro bem no centro de cada um deles.

Ao longe, no horizonte da planície que mal se avistava, duas a três viaturas militares aguardavam silenciosamente. Veículos com rodas num mundo onde já não existia o combustível para os fazer andar. Pelo menos era o que pensava mediante tudo a que assistira e vivera, mas também não deixava de ser verdade que ela havia sido trazida para este local num veículo igual a estes. Onde se esconderiam os restos do poder? Todos "tinham a  certeza" que não haviam sobrevivido, mas uma pequena ou grande parte deles tinha que estar por ali... algures. Gostaria de os encontrar noutras circunstâncias que não estas, para ver o que tinham a dizer sobre tudo quanto aconteceu. Mas, seguramente, este não era o momento ideal para os defrontar. Era tão insignificante mas tão insignificante, que com certeza nem teria tempo de dar o primeiro som, porque não lho permitiriam no exacto momento que se cruzasse com eles. Foram sempre tão sábios e poderosos na Terra desde que a ela chegaram que com certeza continuariam a saber como viver e sobreviver, mesmo no centro do Caos. A eles nada era impossível. Sobreviviam ao próprio Tempo. De um ou de outro modo, nele sempre permaneceriam. Não fossem eles os Senhores do Tempo Infinito. Da Vida Perpétua. Dos ciclos imutáveis da vida e da morte.

Dirigiu-se para um dos veículos. Talvez dentro de algum deles encontrasse com que se cobrir. Desolada, verifica que está vazio. Já sem esperança de encontrar um agasalho e cansada, deixou-se adormecer dentro de um dos carros. Quando despertou, o silêncio continuava a ser dono e senhor daquele lugar semicivilizado e desértico. Era intrigante ainda não ter visto viva alma desde que saíra do monte das criaturas que como ela ali haviam sido depositadas. Decidida a cobrir seu frágil corpo, saltou do carro e dirigiu-se a um dos alçapões. Num mundo cheio de dificuldades, ficou surpreendida por não lhe ter sido difícil abrir o alçapão de ferro, mas também não se demorou a investigar, porque era urgente arranjar um trapo para se cobrir de contrário, não morreria às mãos dos descendentes sádicos do holocausto mas sim às mãos do frio gélido, que lhe cortava a pele.

Encontrou pelo caminho da descida subterrânea, umas escadas que lhe permitiam apoiar os pés doridos, mas nem por isso lhe poupava  as dores que sentia, antes pelo contrário, aumentava-as. Pequenos pedaços escalonados de terra húmida escavados na descida para o inferno mal tinham espaço suficiente para manter os dois pés ao mesmo tempo. Temendo resvalar por ali abaixo ia rezando em silêncio, pedindo a ninguém que lhe permitisse chegar a um lugar mais firme. O percurso tornou-se longo e moroso, parecendo-lhe que descia até ao nada. Várias vezes escorregou quase perdendo o equilíbrio, mas por fim sentiu que seus pés tinham tocado solo duro. Tacteou em busca de algo, mas a verdade é que parecia tudo tão vazio como lá em cima. Finalmente suas mãos machucaram-se contra uma parede rochosa, fazendo-a soltar um grito de dor que ressoou num eco tão assustador que a fez tapar os ouvidos, atemorizada com sua própria voz.

Depois da dor e do susto que havia sentido, tacteou cautelosamente a rugosa parede até que finalmente suas mãos perderam o apoio numa abertura. Sem saber se isto seria ou não um caminho, introduziu-se por ali dentro e caminhou num corredor estreito que parecia não ter fim.

O tempo que tinha passado neste percurso parecia-lhe imenso, mas a verdade é que talvez só na sua imaginação isso houvesse acontecido. A verdade mesmo, era que já não sentia frio. Um calor agradável percorria-lhe todo o corpo, daí que talvez tivesse inconscientemente atrasado a sua marcha. De um modo ou de outro, não tinha ela encontrado ali o que vinha procurar? Se era um agasalho para a proteger do frio o que realmente a motivara a aventurar-se no subsolo, havia-o encontrado na fina membrana de calor que começava a envolver-lhe o corpo nu, deixando-a agradavelmente reconfortada. Se pudesse teria parado a sua busca e aquietar-se-ia enroscada em si mesma numa qualquer pequena concavidade que encontrasse. E, não seria difícil encontrar uma onde pudesse permanecer e descansar pois estas faziam parte das paredes de rocha dura que a cercavam. Mas o seu instinto dizia-lhe que seria perigoso parar nesta altura. Tinha que continuar a caminhada até encontrar uma razão para tudo o que vira. Não fora só um conforto básico que a levara a li nem mera curiosidade e sim necessidade de saber o que estava a acontecer neste Novo Mundo.

Uma luz pálida fosforescente começou a surgir após ter dobrado uma esquina e sua mente foi como que reactivada automaticamente, obrigando-a a pensar onde se encontrava e das cautelas que deveria ter neste local desconhecido. O conforto desapareceu como por magia ao tropeçar num monte de carne gelada que jazia no chão, barrando-lhe o caminho. Um arrepio súbito percorreu-lhe a espinha dorsal, ao aperceber-se no que havia tocado. Todo o chão estava pejado de corpos inertes. Mortos! Todos mortos! Encontrava-se num cemitério macabro. Pelo menos era o que lhe parecia ser este sinistro local. Ia de horror em horror, temendo perceber o que bem no fundo dela mesma, já havia intuído. Este inóspito cemitério, incapaz de realizar o processo da lei evolutiva, da matéria que gera nova matéria, pelo modo como para ali tinham sido atirados, como que aguardando um novo e rápido destino, tinha um fim bem definido que não tardou a fazer-se ouvir num ruído forte e abafado, de calçado pisando o chão, - porque ainda existia calçado, mas não para ela e para os infelizes como ela – cada vez mais próximo de si Quase que simultaneamente, atirou-se para junto dos corpos querendo passar por um deles, pedindo aos deuses que não viessem a aperceber-se da sua presença viva.

Com o rosto apoiado contra o chão viu com pavor a aproximação de três pares de enormes botas, que se movimentavam com rapidez e segurança. Quase deixou escapar um grito de dor, quando uma das botas se apoiou bem em cima dela. Mas o medo do que lhe poderia vir a acontecer se a descobrissem abafou o seu doloroso gemido.

Os corpos sem vida de “seus companheiros”, foram sendo arrastados por enormes mãos, cobertas por negras luvas, num vaivém que parecia interminável. Por fim, pareceu-lhe que a tarefa daqueles homens havia sido terminada. Levantou-se lentamente e seguiu a direcção que estes haviam tomado. Percorrendo silenciosamente o caminho tortuoso que eles seguiam, acompanhava o serpenteado rochoso ao som  dos corpos que arrastados pelo chão num bailado macabro, pareciam não ter pressa em chegar ao seu destino. Todos envolvidos numa fosforescência estranha e macabra, pareciam almas penadas de outro mundo, que de um momento para outro resolveram fazer a sua aparição para brincar aos vivos, num bailado intermitente e diabólico. Em silêncio observava dentro de si mesma este estranho e macabro ritual como se também ela pendurada pelas mãos destes sinistros coveiros, fosse levada para os quintos dos infernos no meio de fogos  fátuos que pareciam brincar com os mortos vivos que por ali se atreviam a andar. Arrepiada dos pés à cabeça, as pernas quase não se tinham de pé fazendo a sua caminhada quase por instinto. Seguia em movimentos firmes mas meio inconsciente, como necessidade obrigatória de chegar ao limiar da sua morada definitiva. Aquela que se não fora a afortunada sorte benfazeja, também seria a sua última morada. Por entre a penumbra esverdeada, ia-se dando conta numa ou noutra curva do que seguia a pouca distância de si. Nem o pavor que lhe apertava o pequeno coração, era suficiente para fugir a esta estranha procissão onde a barreira entre a vida e a morte era tão ténue como um simples respirar.

Uma fosforescência mais intensa, no ar abafado e húmido, começava a iluminar intensamente o corredor, permitindo avistar no fundo dele, uma abertura rochosa envolta numa penumbra esverdeada. Estalactites pendiam ameaçadoras do tecto como gigantescos gumes dispostos a desprender-se a qualquer momento. A visão dos enormes e ameaçadores sedimentos já a curta distância de si, pareciam ter-lhe renovado as forças. As dores de todo o corpo também pareciam ter desaparecido, como se a necessidade de sobreviver ainda estivesse no seu Ser. Nela! Logo nela, que viver era a única coisa que não queria.

Surpreendeu-se a lutar neste estranho e macabro mundo de ninguém, para se manter viva.  Lutava pela sua preservação, agora que estava prestes a encontrar-se de frente com o limiar do Novo Mundo e todos os seus mistérios. Uma voz dentro de si gritava-lhe que fugisse dali antes que fosse tarde, mas os seus olhos não despregavam de algo que ainda não vira mas que sabia existir por trás de todas aquelas fosforescências. Não eram as cores que a atraiam era a necessidade de saber o que estavam a fazer estes tiranos mais velhos que o mundo, que transportaram sempre em si a semente e sobreviveram sempre a todos os fins de mundos, como eternos parasitas resistentes, imunes a qualquer existência. Queria saber como resistiam estes, interminavelmente, a quedas que eles mesmo provocavam e como erguiam os novos mundos em seu próprio beneficio. Como o conseguiriam, desta vez?! Temia tudo! Tinha um horror indescritível, colado a cada célula do seu corpo. Mas a vontade de os olhar de frente e perceber de uma vez por todas quem eram e como eram, era maior que todo o horror. Por isso, irremediavelmente perturbada, avançava firme com o medo estampado no rosto sofrido.

O instinto roçava-lhe as faces, fazendo estas parecer uma máscara dura, que chegava a doer-lhe, como se soubesse sem saber, o que ia encontrar dali para a frente. Mas era já tarde para retroceder e, depois, todo o seu Ser buscava uma certeza do que acontecia ou não ali. Sabia que estava prestes a descobrir a verdade que temia, e realmente ela surgiu tão abruptamente que quase não se havia apercebido que chegara, não fora o sentir-se completamente absorvida por um aposento no qual não via o fundo, devido provavelmente à persistência de uma neblina esverdeada que se estendia por todo o lado.

Só a lembrança do que viu nesse momento a fez estremecer de pavor. Apenas conseguia lembrar-se de se ver parada no meio do inferno verde que havia encontrado, com os olhos esbugalhados de horror.

Este novo quadro que se lhe deparava era de todos, o mais abominável a que tinha assistido depois do holocausto.

A civilização antiga permanecia no seu auge, naquele lugar de morte. Máquinas computorizadas, sofisticadas, estendiam-se por um vasto laboratório, trabalhando freneticamente com um fim definido. Homens envergando batas de várias cores, espalhados por todo o lado, num vaivém infindável, atarefavam-se na lavagem dos corpos e sua dissecação, atirando pedaços de carne humana para dentro de dois tanques cisternas envidraçados, que se encontravam bem no meio do laboratório macabro.

Os tanques eram providos de orifícios vários por toda a sua extensão, que deixavam verter líquidos diversos, mais ou menos espessos, dos corpos já triturados por uma enorme turbina que suspensa do tecto, penetrava bem o interior do tanque e torcidava a carne morta "seus" infelizes companheiros, tornando-os numa pasta viscosa de várias tonalidades que se subdividia meticulosamente quando expelida para o exterior da enorme cisterna envidraçada, enchendo recipientes que aguardavam no lado de fora. Enormes turbinas rodavam constantemente por todo o lado. Um forno, a um dos cantos, alimentado constantemente por variadíssimos tipo de resíduos, ia mantendo em ebulição, nacos de carne humana devidamente separada da restante, até que, da constante cozedura, saía uma pasta em pó, seca e fina.

Porque destruíam assim os corpos de centenas de pessoas? O medo apossou-se de si. Este era o fim para que estava destinada. Ao sentir que as forças recomeçavam a faltar-lhe, procurou onde se apoiar, quando seus olhos dão com latas de conserva bem empilhadas e divididas em lotes de várias cores. Trémula, aproximou-se quanto lhe foi possível, e leu os dizeres inscritos nelas. Um arrepio gelado percorreu-lhe toda a espinha; a resposta para todo este inferno existia, estava ali diante dos seus olhos, numa pilha de latas encarnadas, amarelas, verdes, violeta, etc. O alimento da nova era: Carne humana para alimentar carne humana. food Como podia isto existir?! Quem eram os autores de tão macabro processo?! Que mentes diabólicas haviam concebido esta incrível forma de sobrevivência?! Dispostos a tudo para subsistirem, neste mundo pavoroso, como qualquer vegetal insensível, também não se davam conta do crime que estavam a cometer. Mas, porque pensava ela em crime?! O holocausto, não era já uma prova irrefutável do que “estes” poderiam fazer?! Eles... Não morrem nunca!

Num mundo cheio ou vazio, “eles” têm sempre forma de sobreviver! O mundo é deles! Sempre foi! Não lhes bastou a colonização permanente da Terra! Precisaram também garantir que seriam os únicos viventes, nela, para sempre. E os outros!? Qual era o seu mundo? Será que o tinham ou tiveram algum dia? Ou foram sempre objectos de mera utilização, para consumo destes privilegiados e talentosos senhores do mundo?

Não! Era horrível demais o que via para poder continuar naquele lugar de pesadelo. O encontro com os restos da civilização perdida, metia-lhe medo. Tinha que sair dali! Não havia lugar para onde ir, sabia, mas mesmo assim iria... não ficaria ali. Ali não!

Retomou o caminho que tinha seguido até lá e correu de volta até ao alçapão. Cá fora tudo continuava igual a antes. Indecisa, ficou sem saber o que fazer por instantes. Como sair daquele horrível lugar, onde os restantes verdadeiros humanos, eram tão ou mais irracionais do que os atingidos pelo infortúnio. As viaturas continuavam silenciosamente à espera, e foi para uma delas que se dirigiu. Agachou-se no interior, tremendo de frio, e adormeceu exausta. Aquela luz morta, tão sua conhecida, despertava-a de um pesadelo, para lhe dar um seguimento no seu eterno acordar, enregelada de frio, numa posição fetal, olhava a claridade deste novo velho dia, sem saber bem o que deveria ou não fazer. Perdida, arrastou o corpo dorido até à extremidade do veículo e espreitou para fora deste, mas nada de novo aconteceu. Levantou-se e caminhou dentro do carro para tentar com os movimentos se aquecer e, foi quando, algo lhe chamou a atenção: num canto, estava roupa. Sem hesitar, pegou em algumas peças e começou por se vestir, embora estas fossem exageradamente grandes para o seu tamanho, além de que eram roupas de homem, mas quem é que se iria importar com isso? Aliás, ia já tão longe a sua “necessidade” feminina, que nem sabia se algum dia isso fora sintoma de grande diferença entre seres humanos ou se mesmo chegara a ser algum dia importante. Nunca uma roupa a tinha feito tão feliz. Sentou-se e esperou. E, a sua espera, não foi demorada. Num curto espaço tempo, dois indivíduos entraram no camião e puseram-no em movimento sem saberem da sua presença. Quando sentiu a imobilidade deste correu para fora, embrenhando-se por entre um nevoeiro, que não lhe permitia ver nada.

Já fora daquele lugar horrível, onde o impossível acontecia, deambulou trémula pela imensidão de uma eternidade húmida e móvel, sem saber o que fazer de si própria, vindo a despertar no local onde se encontrava neste momento, sem perceber como fora ali parar.


 

FIM DO PRIMEIRO CAPíTULO

 

ficção, livros

publicado por lazulli às 23:46
Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

 

 


EscritoPorLazulli lazulli às 11:46
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Sábado, 20 de Dezembro de 2008

O Senhor Do Tempo

Saturno - Saturnália

 

 

 

 

 

 

 

 

 



EscritoPorLazulli lazulli às 01:57
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Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

ave

 

 

 

Ave

nos céus

ferida

ensombrada

em sua própria sombra

setas

certeiras

fazem vacilar

seu voo alado

à muito

predestinado

por deuses

dos outros

desconhecidos.

 


Propósitos

ensombrados

deuses zangados

humanos em terra seca

fincam os pés

arqueiam as pernas

atiram firmes

e certeiros

palavras doces e amargas

ao troféu cobiçado

mas não desejado

não amado.

 


Caçam

o sagrado

desprezando

a queda que se avizinha

do alto dos céus

indiferentes

abandonam

a "presa" quase morta

que a pique

vai tombando

ferida

suspensa ainda

pelo éter

amigo

que embala

no seu colo

a ave

cada vez mais ferida

impedindo

a queda abrupta

no mundo desconhecido.

 


Adiado

fica

o voo alado

o sagrado

o desejado

a promessa

o incumprido

fica

mergulhado

num rio

esquecido

o Prometido.


Não sabe falar

a língua dos homens

a ave

exprimir

o seu sentir

sagrado

destinado

unicamente

ao sentido.

 


Não sabendo voar

nem tendo asas

os homens

não a querem alcançar

e sim feri-la

enganando-a

com as armas

mortíferas

com que nasceram

as do engano

do prazer

da mentira

da indiferença

e, dizem-se

orgulhosamente dignos

da sua vitória

do seu desprezo

pelo mais frágil

mais débil.

 


Mergulhados

no rio do esquecimento

do antes do agora e do depois

interpretam-na

de acordo

com os seus sentidos

atribuindo-os

à que já cega

pelo sangue

que de seus olhos

corre

morre devagar

na sua própria queda

em direcção

ao nada.

 


Abandonada

não abandona os seus propósitos

longínquos

não pode

não quer

não consegue

e morre

com eles

dentro de si

para sempre.

 

 

Esperança efémera

quimera impossível

abandonada desprezada

ignorada

por deuses e homens

senhores e escravos

entrega seu corpo à terra

e deixa-se

ir caindo

à espera

de nada

coisa nenhuma.

 


Vacilante

voa desequilibrada

sobre o nada

abandona seus propósitos

de ter

de proteger

de saber

de dar e receber

de amar

o impossível.

 


A pequena sombra que projecta

e se aproxima

dos homens

caçadores exímios

tarda

danificada

pela língua

não entendida

de mundos diferentes

com significados diferentes

por tão má interpretação

à sua tão indecifrável

linguagem

perde

o Prometido

encontrado

e perdido.

 


O rio

do esquecimento

corre

são lágrimas

que verte

lá do alto

enquanto vai caindo

chorando e sorrindo

por tão mau entendimento

entre os que caminham sobre a terra

e aqueles que têm asas

pequenas

e frágeis.

 


Lágrimas

que continuam a cair

no rio

enchendo

e florindo as margens

de flores

que não existem

são de mágoa

de dor

de culpa

por esperar

por aguardar

por procurar

por encontrar

e por perder

por morrer

por não querer acreditar

no impossível.

 


Desespero

por não se fazer entender

e deitar tudo a perder

na tentativa

de usar

a língua

que não é sua

nem deles

e sim

dos tradutores desconhecidos

maus copistas

deste mundo

sempre distante

e incompreensível.

 


Não existe um sentido

nas palavras

existe um sentido

para as palavras

vindo de longe

de pra lá do mundo

antes ainda

do Tempo e do Espaço

se formarem

de passarem a existir

se realizarem

e concretizarem.

 


Na alma ferida

perdida

desacreditada

continua

o nada

de si.

 


Asas

que projectam

à terra seca e árida

palavras sem poder

de um tempo esquecido

de um tempo

onde dois

eram unicamente

UM.

poema, poemas, poesia

 

publicado por lazulli às 00:40
Domingo, 9 de Setembro de 2007

EscritoPorLazulli lazulli às 13:53
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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Humanidade Escravizada (XI)


(continuação)


 

Claro que para entender a sua origem e o porquê da sua existência, bastaria que o Homem pensasse seriamente na função da matéria e dele próprio, tentando perceber se a matéria existe para que o Homem possa existir ou se, pelo contrário, é o Homem que tem que existir para que a matéria possa existir e qual destes dois beneficia ou perde com a existência do outro. Se por acaso for o Homem que dá vida à matéria, então só a existência do Homem é que faz viver a matéria. Só ele é que move esta imponência «morta». É o escravo da matéria. O escravo que a mantém viva ao longo dos tempos. O que seria da matéria se o Homem não fosse seu escravo? Com toda a sua inteligência, ela só por si, como viveria? Se, por acaso, esta junção de matéria e ente coexiste porque quer ou se uma está sujeita à outra irremediavelmente ou não, é algo que aparentemente ninguém sabe. Com certeza, se o Homem começasse por analisar, por exemplo, o início da sua formação física e em simultâneo o seu sentir interior, talvez dê-se o primeiro passo para um entendimento sobre o porquê da sua existência. Mas, realmente, são já tantos os estudiosos que se dedicam a este tema que adverti-los da verdade a eles, os entendidos na «matéria», cheios de diplomas a confirmara sua douta sabedoria, seria no mínimo caricato. E a verdade, é que com a Verdade diante de si não a vêem. Pior que o cego é aquele que vê e não quer ver, isto sim é uma verdade. É que ninguém já parece acreditar seja no que for, mas continuam fingindo que acreditam. Ninguém mais parece preocupado se é verdade ou não o que a tradição diz. Parece que têm consciência que de nada lhes adiantaria a procura da verdade. Até já dizem que o que é verdade para um pode não ser para outro. Pergunto-me, imbecilmente, se a verdade só por si não deveria ser uma única, igual e imutável para todos. Num mundo, onde a mentira é conhecida de todos, parece que ninguém quer pôr a hipótese que vivemos assim porque alguém quer uma enorme mentira. Mas, se todos os homens mentem e todos os homens falam a verdade, porque será que o ser humano não se interroga se foi mesmo a verdade que lhe transmitiram ou se, pelo contrário, lhe mentiram? Aliás, há tantos e tantos motivos para pôr em dúvida o porquê da vida, que não entendo toda esta inércia humana, esta letargia, este desinteresse por si próprios, como se de dentro deles viesse um aviso de perda de tempo na busca desta verdade tão necessária a todos. Mesmo assim, continuo a aguardar o som de qualquer voz que chegue, de alguém a dizer a verdade de uma vez por todas, acabando com este mito horrendo de que a verdade não existe. Até pode ser. Aliás, neste mundo tudo pode ser e continuar a ser até ao infinito. Mas eu continuo a pensar e a sentir, daí que tudo farei, em cada segundo desta minha parca vida, para tentar impedir que continuem a manter esta farsa existencial vil e velhaca, alegando ser este o modo de vida perfeito, de uma civilização perfeita, num mundo também perfeito. As consequências das suas tentativas de melhorar toda esta perfeição imperfeita atingem a plenitude do engano perpétuo e, cada vez mais, o ser humano deixa de ser ele próprio para passar a ser os outros. Mas, para ser possível levantar este pesado e escuro véu que paira sobre todos nós, sobre a nossa origem e a nossa existência, seria necessário que o homem acabasse com o desinteresse que tem por si próprio e acreditasse que a verdade existe algures bem guardada à espera de ser encontrada. Talvez começando por investigar onde, quando e porquê se iniciou o último começo de toda esta trama diabólica ao desprevenido ser humano que caiu neste universo sempre em expansão, com a memória desgastada de um passado longínquo real e doloroso. Que tivesse consciência que só foi acatando tudo quanto viu e ouviu porque a dor apregoada era-lhe familiar, como uma outra dor que dentro de si estava mal lembrada. E chegou o dia em que a dor que não existia passou, de facto, a existir, substituindo a dor antiga e apagando de vez com essa lembrança remota de um tempo esquecido: A sua origem. Ao acatar bem e mal a transmissão de séculos, a sua resistência foi diminuindo e, hoje, depois de todas as ilusões e desilusões, não há nada em que acredite porque a incompreensão e a dor dentro de si tomou uma forma alarmante, parte integrante desta trama tão profunda que é o Planeta em que vivemos.

 

(continua)

 

quase no fim da cruzada

ensaio, homem, livros, mulher, vida

publicado por lazulli às 16:27 (Do Livro De Ensaio Sobre O Homem "Humanidade Escravizada"

Quarta-feira, 5 de Setembro de 2007

SintoMe: ... a olhar meca de soslaio

EscritoPorLazulli lazulli às 00:46
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Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2008

Mary Paz - Primeiro Capítulo (14)

(continuação)

 

 

Quando despertou, o espectáculo que viu arrepiou-a dos pés à cabeça. Encontrava-se empilhada num monte. Sim, um monte! Mas de carne humana. A medo e sem compreender de início o que aquilo significava, moveu-se lentamente tentando pôr-se de pé. Tropeçando nos corpos na tentativa de se levantar, suas mãos seguravam-se aos seus inanimados companheiros de infortúnio, fazendo alguns deles soltar um leve gemido quase que imperceptível. Quando finalmente se conseguiu manter em pé, o pavor de descobrir onde se encontrava paralisaram-na por completo. Não conseguia afastar os olhos daquele quadro tão horripilante. Corpos e corpos, empilhados em cima uns dos outros como que atirados à sorte, jaziam por uma extensão de talvez dois a três metros. E estavam todos nus! Lentamente, quase não querendo acreditar no que estava a ver, baixou os olhos pelo seu próprio corpo e o que temia era verdade, ela também estava nua e o tornozelo liberto da pulseira que os controlava, como todos os restantes “mortos”. A verdade é que assim como ela, nem todos estavam completamente mortos, pois tinha ouvido gemidos que saíam da pilha de corpos de onde se tinha acabado de libertar. Mas isto não parecia ter preocupado quem os tinha depositado ali. Pois que para além de os libertarem das pulseiras electrónicas, lhes haviam retirado os míseros trapos que os cobriam sem se certificarem se iam ou não continuar a precisar deles para se agasalharem .

Gelada de frio, deu uma olhadela à sua volta e nova surpresa a aguardava. Aliás, já estava tão habituada às surpresas deste novo mundo, que ficaria admirada se de cada vez que abrisse os olhos, por acaso, não tivesse no mínimo uma pela frente. E para não fugir à regra habitual este novo mundo, pois parecia que isto pretendia ser um novo mundo, estava salpicado por aqui e por além de pequenas tendas verde azeitona, que não albergariam com certeza mais de duas a três pessoas.

Todas as construções tinham ruído no deflagrar e bem se poderia dizer que a maioria delas construídas, prevendo grandes cataclismos. Entretanto estas pequenas tendas, aparentemente tão frágeis, aguentavam firme, parecendo desafiar o mundo destruído lá fora. Estranho... parecia que alguém se havia preparado para a destruição do mundo, armazenando para o que desse e viesse este manancial de tendas de campanha. Por mais que tentasse, não conseguia explicação para esta visão que se estendia silenciosa  diante de seus olhos, por uma extensão incansável. Mas de uma coisa tinha a certeza, é que tudo isto era bem mais real do que ela. Muito mais. No espaço talvez de um ano – quem saberia ao certo? – já conseguira ver tentativas de um reerguer da sociedade, mas de um modo tão vil, tão inumano, que já não sabia se o depois não seria bem pior que o antes para os fracos humanos que continuavam a existir ao sabor de quem quisesse fazer deles o que lhe apetecesse. Se nada aprenderam antes, não era com o que Mary se tinha apercebido existir que iam aprender fosse o que fosse. Continuariam eternos ignorantes à mercê de um poder maior. Desde que as forças não lhe faltassem, Mary, tentaria perceber o mundo que estes eternos senhores do poder, pretendiam construir de novo e quem desta vez pensavam sacrificar para poderem continuar a existir. Se tinha que morrer às mãos deles, queria saber como e porquê, antes do momento que lhe destinavam.

 

(continua)

 

sem caminho a percorrer
eu, ficção, livros
publicado por lazulli às 17:46

Domingo, 3 de Setembro de 2007


EscritoPorLazulli lazulli às 16:52
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Dedicado a uma amiga

 


Aninhas

 


Vagueavas pela Terra

Perdida de vida em vida

E, em cada uma delas

O peso era maior

Os dissabores da existência

Tornaram-te esquecida

Vagueaste por terras desconhecidas

Fizeste aparentes descobertas

Vivendo cada vez mais a vida

E, nesta roda perpétua

Presa já não só da vida e sim de ti própria

Tiveste num destes momentos

Um único pensamento

Viver

Desistis-te

O tempo era já longo

Perdeste-te no teu ganho

Porque finalmente venceste a vida

Que te subjugava há muito tempo

Mas, lá no íntimo de ti mesma

O incómodo do real que abraçaste

Porque não querias ser mais vencida

Continua a incomodar-te

Mas ganhaste nesta vida

À espera da outra, onde tudo recomeçará de novo para ti

Sempre no início do movimento... do descomunal movimento

Porque no passado que não existe, desacreditaste de mim

Desacreditaste que eu existia ou poderia vir a existir

E aqui estou eu palpável a teus olhos sempre atentos e desconfiados

Sempre ansiosos para me desvendar

Para me possuir

Para me ter

Mas o teu íntimo luta contra a tua vontade

Sabes-me

Inalcançável . Impossível. Distante

Eternamente fechada no meu mundo

Mundo onde ninguém pode entrar

Nem tu com todo o teu amor e persistência

Tens capacidade de vencer ou de mudar

Como fizeste com a Vida

É ela mais fácil que eu

A difícil

Que ganhaste

Tu podes não querer

Mas o teu íntimo sabe da minha existência

É essa. A da tua eterna suspeita.

Por isso, não tentes mais

O intentado

Vai ficando num longe perto

Mas, não me queiras

Porque não me terás

Como a vida exige a todos

Tu sabes que não

Por isso ficaste sempre por perto

Desiste sim de mim

Mas não da minha Alma

Daquela a que apelavas

Ainda criança menina

Como sabes

Tardei, mas vim

E que perigos corri para te resgatar a ti e quantos outros

Mas até eu me sinto perdida nesta roda infinita chamada vida

Levarei até ao fim o meu propósito sem me trair ou sucumbir

Os desafios e as tentações são imensas

E a minha força também está em ti

Se fosses mais tu e menos mortal

Eu me salvaria deste lamaçal onde me sinto atolar todos os dias

Não confrontes o que não é confrontável

O teu olhar de certeza ou dúvida trespassa o meu Ente já doente

Onde poderá renascer a ira ou a vontade de partir sem nada levar

E também eu dizer

Não vale a pena

Que a roda continue

E que os senhores da roda continuem o seu movimento

Não mais os importunarei

Por vezes... muitas vezes... queria só ser humana

Animal ignaro e estranho que me apoquenta

Ser apenas um de qualquer um deles

Mas, a natureza é outra

Uma outra que me exige acabar com o que um dia foi determinado

Por isso tudo e muito mais

Gostaria de poder te pedir

Porque pensas o impensável

Porque me misturas sem me quereres misturar

Não sabes que dói ?

Sabes... Tu sabes tudo sobre mim

Sabes o que importa saber

Não peças ou queiras mais

É este mundo ou esta vida

Ou esta estranha gente mais importante para ti do que a tua essência?!

Não me penses

Porque errarás

Não tentes

Não me obrigues a pensar

Deixa-me apenas estar

Deixa-me rir junto contigo

Não duvides

Porque é de ti que estás a duvidar

Junto a ti

Os teus pensamentos humanos torturam-me tu sabes

Não me faças recuar

Gostaria de te falar a verdade

Não porque o não saibas

Por mim, só por minha necessidade

Mas, quase que iria cometer mais um erro

Mas tudo foi a tempo

Infelizmente

Não me deixaram enganar

Eu quis

Mas eles não me deixaram

Trataram de impedir

Um erro crasso

E sozinha vou continuar

Nesta mistura horrenda de mortal mal acabada

Intrusa, em território inimigo

Valente guerreira universal ferida

Maltrapilha numa guerra sem quartel

À espera de cada um dos meus próprios sorrisos

Sem perguntas ou desafios.

Muitas vezes me pergunto

Se voltarei a cruzar as duas Terras

Nesta guerra perdida falando dificilmente uma linguagem que não é a minha

Quando adormeço

Já não choro amando o meu amor imenso e terno

Perdido

Para sempre Perdido

Recuso-me pensar

Olhar o espelho e ver a natureza de que sou constituída

Quantos foram os que viram o que sempre quiseram ver

E não quiseram acreditar

Aceitar esta cumplicidade

Tua alma sabe que cheguei

Chamei-te e tu vieste

Afastei-me não de ti mas da tua força de vida

Por recear ficar ferida

E neste instante dentro de mim reconsidero a minha força oculta

Mas como simplesmente humana não posso

Querer-te perto de mim

Só quero continuar a ter

A tua estranha Amizade

Mas

Só Amizade.

 

 

(2003)

sem caminho para percorrer
amizade, poema, poemas, poesia

publicado por lazulli às 10:42
Setembro de 2007

EscritoPorLazulli lazulli às 12:12
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Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

Humanidade Escravizada (X)


(continuação)

 
 Presos na Matéria
 
 


 

O Homem é prisioneiro de si mesmo porque lhe ocuparam o cérebro com uma data de coisas inúteis, impossibilitando-o de se sentir. Não haverá amanhã para todas estas almas penadas se não entenderem a tempo o que lhes aconteceu no passado, que passou à tanto tempo que os homens esqueceram já ter existido, ou pior, privilégio guardado por algumas castas, que querem continuar a comandar os seres viventes. E foram tantos os que tentaram na busca de verdades perdidas, naquele tempo ido... que a própria verdade deixou de ter significado e ficou para sempre oculta ao entendimento dos homens. Nesse tempo, que o próprio Tempo fez questão que deixasse de existir na memória dos homens, fossem eles ou não procuradores da verdade sobre a razão da sua existência, o mundo existia sem viver e sem grandes aspirações, a não ser a de deixar de fazer parte do Espaço/Tempo. Mas o corpo que cobria os homens começava por querer mais do que lhe estava destinado. E o pensamento envolvido e desenvolvido por aqueles que mais depressa foram ocupados pelos seus opositores espaciais, indicou o caminho que nos levou a poder existir para sempre, com a «descoberta» da criação dos corpos por intermédio de outros corpos. Pois para eles era muito mais importante existir do que não existir. Ter sempre a possibilidade de se tornar denso, mesmo que para isso se tivesse que condenar toda a humanidade existente assim como a não existente. A própria verdade era demasiado simples e implacável para que aceitassem a sua inferioridade perante os grandes construtores da própria vida. Assim, preferiram alterar o curso das coisas quando esta verdade lhes foi de um modo ou de outro revelada por todos os grandes iniciados (pensadores, sábios e filósofos), como Zoroastro, Manes, Nietzsche, Jesus, Platão, etc...., que só não encontraram nem deram a Verdade à Humanidade (embora já tivessem consciência da dualidade) porque a certeza comum a todos eles era que a vida era uma dádiva benéfica e a preservar. Não me parece que algum dia tenham posto em campos opostos a Matéria e a Essência, muito pelo contrário. Faziam-nas depender irremediavelmente uma da outra, como se sem uma não pudesse existir a outra. É verdade que a Matéria não ­adquiriria vida e teria que se sujeitar ao seu estado primeiro sem transformação ou evolução de espécie alguma, mas a Essência continuaria a existir sem ter que viver impregnada de uma coisa que lhe não pertence e que é sua inimiga muito antes de qualquer início de vida, como a conhecemos e entendemos. A união forçada, não voluntária, da Matéria e da Essência, obrigará o ente (partícula de essência cósmica) a tomar forma sempre que a vida se manifeste e o homem continuará a pensar que ele e o seu corpo são um só. Não conseguirá perceber que a matéria inteligente de que é constituído é completamente distinta do seu ser e tem necessidades muito diferentes das suas. Devido ao alto valor de preservação que todos dão à existência, a descoberta da Verdade tem estado e continuará a estar dificultada. Mesmo os pensadores não se distinguiram desta crença dogmática permitindo, a partir daí, toda uma série de filosofias dualistas que no fundo convergem e se completam umas às outras. Mas isto só aconteceu, porque se basearam sempre unicamente nos conhecimentos ao seu alcance. Aqueles que a vida na Terra lhes proporcionava. Faziam as suas próprias deduções e observações, com base na observação e dedução de outros anteriores a eles. O que estava dito e escrito, tomado como certo, era o seu ponto de partida. Não pondo em causa esses «ensinamentos», não usando a imaginação e não acreditando numa verdade completamente diferente da contada até ali, todas as suas tentativas de uma filosofia diferente, ainda hoje, não passam disso mesmo, meras suposições filosóficas. E, assim, a vida, não pode existir sem ser tal como a conhecemos, nem ter outro motivo para acontecer, para além daquele que nos têm dito. Que foi Deus que criou a Vida e criou-a porque lhe apeteceu. Sendo este, o ponto de partida de tudo quanto existe, percebe-se a dificuldade dos sábios, eruditos e ignorantes, durante muito tempo (e ainda hoje), terem dificuldade em acreditar em vida inteligente no Universo. Para eles só existirá vida inteligente no Universo, se essa mesma vida tiver a mesma forma e manifestação, que temos todos nós. Como se nós (terráqueos) fossemos inteligentes. E, assim sendo, todas as entidades oficiais, isoladas ou colectivamente, sempre souberam (e muito bem!) escamotear a verdade, de maneira a não permitir à grande maioria desta humanidade escravizada entender o porquê da sua existência.


(continua)

 

actualidade, ensaio, homem, livros, vida

publicado por lazulli às 15:46

Quinta-feira, 30 de Agosto de 2008

SintoMe: a lutar contra o Islamismo

EscritoPorLazulli lazulli às 23:14
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Mary Paz - Primeiro Capítulo (13)

(continuação)

 


Já a um metro dela, o andróide parou e parecia aguardar que ela tomasse qualquer decisão. Mas apesar de Mary adivinhar o que ele pretendia, não se moveu do sítio em que se encontrava aguardando o que se passaria de seguida. Não estava com disposição de acatar ordens de ninguém e muito menos desta entidade artificial. Contudo não teve muito tempo para ver a reacção da coisa à sua teimosia. Por instantes vê-o levantar o braço e, adivinhando as suas intenções, atirou-se para o chão no mesmo instante em que um raio de luz ultra violetas, cruzou o ar em sua direcção. Rastejou até junto do amontoado de pessoas mais próximo na tentativa de fugir à sua investida, mas estes pareceram não se terem apercebido da presença dela continuando a esgravatar na terra completamente indiferentes ao que estava a acontecer à sua volta.  Teve esperança que o infernal aparelho, semelhante ao homem, se desinteressasse dela, mas isso não aconteceu. Num ápice, sentiu-se suspensa no ar e quase que imediatamente, ir aterrar junto dum monte de terra que tinha acabado de ser retirada dum enorme buraco mesmo a seu lado. Espantada, vê finalmente e realmente o que aquela colmeia humana fazia de cócoras no chão. Eram túneis! Túneis imensos que se interligavam uns com os outros entre si, como se alguém pretendesse fazer um mundo subterrâneo.

Mas construir um mundo subterrâneo com as próprias mãos humanas?!... Não queria acreditar! Depois de terem munido o recinto de torres descomunais que deduzia, controlarem as pulseiras nos seus tornozelos para que ninguém arredasse pé e um eficiente guarda artificial, aparentemente capaz de realizar este doloroso trabalho sem sofrer nada, porque usavam seres humanos tão debilitados para realizar as suas intenções? Que espécie de gente era aquela, capaz de destruir o seu semelhante de um modo tão macabro, para poupar uma máquina possante e totalmente insensível? Nenhuma lição de humanidade tinham aprendido estes homens, agora capazes de construir um novo mundo sobre o sofrimento e dor de tantos milhares de seres humanos.

Mary, não acreditava, depois disto, na regeneração humana. O Homem sempre teria que ter o Poder sobre outro homem, sempre! Não se contentava ele em apenas existir. Para ele existir só era possível com outros a sofrer. O homem não voltaria a compreender... Qual o futuro do que ela via? Estava certa que haveria um futuro... Mas qual? Embora não querendo, parecia que a vida estava a querer que ela fosse parte integrante desse futuro. De que lado?! Sabia que fazia parte dos mais desfavorecidos, vítimas como ela do holocausto, mas tinha consciência de não pertencer a esta nova raça de bárbaros que se atropelavam uns aos outros numa existência difícil para todos, mas dos que restaram intactos da antiga civilização, daqueles que se mantinham ocultos, algures, direccionando os restantes com a pretensão de erigir uma nova civilização, também não fazia ela parte. Continuaria a ter uma vivência, sem pertencer a nada e a ninguém. Maldita vida, que não lhe permitia a escolha de não viver. Antes pelo contrário, lutava com ela para que sobrevivesse.

Já suas mãos ensanguentadas esgravatavam a terra fria, quando se apercebeu dos dedos descarnados que remexiam a terra junto de si. Os gemidos de dor à sua volta, eram-lhe mais difíceis de suportar do que as dores que iam aumentando nas suas próprias mãos. A seu lado uma criança caiu, indo encostar-se a ela. Um arrepio percorreu-a por todo o corpo. Liha... Tinha sensivelmente a idade de Liha! Parou de “cavar” indiferente ao cadáver da criança, todo envolto numa lama de sangue. Liha também poderia estar viva, naquele ou noutro local; embora não acreditasse muito que tivesse sobrevivido a tal horror. O que teria acontecido à sua filha? Teriam os deuses permitido que o sofrimento lhe tivesse sido poupado? Tão frágil e tão imune aos efeitos das radiações, pelo menos foi assim que a viu quando a multidão a tragou e a fez desaparecer para sempre de si. Liha! Liha! Que é feito de ti minha filha? A recordação de Liha, não lhe permitiu ter mais forças para continuar a esgravatar a terra. Antes de cair inconsciente, lembra-se de ver ainda em torno de si, mãos descarnadas que vertiam um líquido viscoso e fedorento. As imagens, iam passando cada vez mais rápidas diante de seus olhos semi fechados, até que só o rosto de Liha, alegre e sorridente, se fixaram na sua mente, como se o holocausto nunca tivesse acontecido.

 

(continua)


"Os Filhos do Sol"

ficção, livros

publicado por lazulli às 19:10

Quarta-feira, 29 de Agosto de 2007


EscritoPorLazulli lazulli às 11:32
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Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

Selva Desconhecida

 

 

Aventurou-se

na densa Selva desconhecida

na busca da luz perdida

deixou-se conduzir pelo instinto

como qualquer animal

só animal

mas a Selva

revelou-se com muitos perigos

para os próprios animais

só animais

e

ela ia nessa condição

na condição de animal

só animal

a réstia de luz

fugia-lhe

em sua busca

tropeçou muito pelo caminho

machucou seus joelhos

magoou seus pés descalços

e

com o sangue vertido

sobre a terra seca

da Selva desconhecida

foi fermentando

os escassos e apertados caminhos

perdeu-se

na noite selvagem onde penetrou

olhos furtivos

espreitavam seus passos inseguros

no caminho mal traçado

mal iluminado

nem a lua

ali entrava

e

quando seus passos

inseguros

de animal só animal

a conduziam para lugar mais seguro

logo um rugido se ouvia

chorava

desprotegida

na selva habitada por animais

que não eram só animais

possantes

perigosos na sua diversidade

grandes

não descodificava o som de cada rugido

não os distinguia

quando a ameaça chegava aos seus ouvidos

não passava de

uma caminhante perdida

sem autorização para avançar

mas insistia

em continuar sem caminho

seu destino

em busca da luz

que a guiava

na Selva que não era dela

que tinha donos

sem pedir autorização

falta de humildade

a dela

enfurecia os verdadeiros

mas não legítimos donos da Selva

aqueles que não são

só animais

 

 

com o medo

de mais se magoar

e a terra da selva fertilizar

porque era sangue

o adubo

que acidentalmente vertia

chegou o medo

e com ele

o som do silêncio

quedou-se dentro de si

a escutar

um modo como regressar

mas, já se tinha perdido

de vez

sozinha

não tinha quem lhe indicasse o caminho

e a luz

não se vislumbrava

haviam luzes

mas não eram naturais

eram olhos

os olhos que tudo viam

que tudo guardavam

que tudo queriam

e

não sabendo como regressar

para onde ir

parou numa clareira de pedra cristalizada

ergueu o seu reduto feito de nada

e ali ficou

à espera

que ele imita luz suficiente

para lhe iluminar os caminhos da Selva invisível

e assim poder ver

por onde anda

sem ter que se

voltar a magoar.

até a luz

encontrar.

 

selvapantano.jpg

 não sei

eu, pessoal, poema, poemas, poesia

publicado por lazulli às 18:50

Terça-feira. 28 de Agosto de 2007

SintoMe: com "medo" da kaaba

EscritoPorLazulli lazulli às 13:19
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Domingo, 7 de Dezembro de 2008

Humanidade Escravizada (IX)

 

(continuação)

 

 

De qualquer modo, nem tão pouco é preciso basearmos-nos na Bíblia para confirmamos a não existência do Adão e da Eva, de onde dizem termos origem. Basta sabermos de onde veio cada um de nós, fazermos contas e utilizarmos as mais modernas tecnologias ao nosso dispor hoje em dia para confirmarmos estes dados. Se tiverem curiosidade de confirmar isto e consultarem a vossa árvore genealógica, verificarão esta realidade tão simples e deixarão de ter definitivamente dúvidas sobre se realmente esse tal Deus criador pôs mesmo um homem e uma mulher na Terra, para darem início a esta humanidade tão diferente entre si.

Segundo a Bíblia Sagrada, traduzida dos textos originais, com notas, dirigida pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma – Edições Paulistas, 1978, no Génesis, nessas mesmas notas, está mencionado que «A criação do céu e da terra (1,1-2,3), é como que o prólogo do grandioso drama, que se divide em duas partes, e tem por protagonistas os cinco grandes patriarcas : Adão e Noé, patriarcas do género humano; Abraão, Isaac e Jacó, patriarcas do povo hebreu. O todo é enquadrado pelo autor sagrado em dez tábuas genealógicas...» Dez tábuas genealógicas?! Não era só uma?! Mais ainda, qual a diferença entre género humano e povo hebreu? Então o género humano chegou primeiro que o povo hebreu? E em que altura chegaram estes últimos à Terra? Será que isto significa que há de facto diferença entre filhos de Deus e filhos do Homem, tal como é mencionado ao longo da Bíblia em várias ocasiões como, por exemplo, no Génesis (6,1-2) «Quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e geraram filhas, viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, e tomaram-nas como esposas a seu gosto.» Ou em Ezequiel (2,1) ­«Filho do homem, põe-te de pé, que vou falar-te». Se o próprio Deus, se dirige ao homem, por «filho do homem» e não por «meu filho», isto não pode ter nenhuma interpretação além daquela que está escrita. Que não somos todos filhos de Deus. Além disso, até no Novo Testamento, em (Mt. 15:13) é mencionado esta coisa espantosa: «Toda a planta que meu pai que está nos céus não tiver plantado será arrancada». Parece que muitos de nós não escaparão, façam o que fizerem. Pelos vistos o senhor não nos plantou a todos. Vai daí, quem teria «plantado» os outros?

Como vimos, a Bíblia faz várias referências a filhos de Deus e a filhos do Homem, o que significa que existem, pelo menos, duas espécies reconhecidas e devidamente diferenciadas por Deus ao longo de toda a Bíblia. Uma delas parece de facto, ter origem em Deus, mas a outra, provavelmente terá origem no próprio Homem que vem de Deus e/ou mesmo na própria Terra. Perante esta dura realidade, parece-me, que não tendo todos nós a mesma origem nem a mesma natureza, logicamente não temos também os mesmos direitos, a mesma razão de existir e a mesma finalidade. Daí, a pretensão dos cristãos de virem a ser filhos de Deus, através do baptismo, mesmo que este baptismo lhes dê unicamente o direito (segundo dizem) de ser filhos adoptivos deste ­«fantástico» Deus. O arrancador de plantas.

Mas neste momento não me interessa discutir a possível distinção entre filho do Homem e filho de Deus tão mencionada em toda a Bíblia, sejam eles criados, gerados ou engendrados; deixo isso para quem pretender saber mais sobre o assunto. Interessa-me sim mostrar, se possível, que não descendemos de um único casal e sim de vários, originários do nosso planeta ou de um outro qualquer.

 


(continua)

 

voando sobre o pântano
homem, literatura, livros, vida
publicado por lazulli às 15:30
Segunda-feira, 27 de Agosto de 2007
SintoMe: horrorizada com o mundo islâmico

EscritoPorLazulli lazulli às 01:10
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Sábado, 6 de Dezembro de 2008

murmúrios inaudíveis

 

 

 

Se pudesses sentir

 

o meu sentir

 

os murmúrios

 

seriam o apelo das almas

 

infinitas

 

imortais

 

feridas

 

como a ave

 

que se aproxima nesses céus

 

e para aqui se dirige

 

como ela

 

também o meu voo

 

parece lento

 

parado nos céus da terra

 

estranha

 

mas não podia deixar

 

de ouvir

 

os murmúrios do tempo

 

a sussurrar-me

 

o sentir perdido

 

distante

 

ausente

 

não posso pedir mais tempo

 

e, continuo a precisar dele

 

para voltar a ser eu

 

em ti.

 

 

aqui sempre estarei,

 

eternamente

 

 

ouvindo o canto da tua alma...

 

silenciosamente

 

parada.

 

envolvida

 

em murmúrios distantes

 

inaudíveis

 

e impenetráveis.

 

sonsDoSilêncio.jpg

( AVD)

 

ausente
eu, poema, poemas, poesia
 
publicado por lazulli às 10:15
Agosto de 2007

EscritoPorLazulli lazulli às 21:41
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1995 Fins de Agosto

Procurei-te por todo o lado tentando em vão encontrar um rastro ténue que me conduzi-se a ti e de todas as vezes que te procurei deparei com fantasias incríveis e mortais sequiosos dum saber perdido mas não esquecido de qualquer um deles. Desalentada, vi-lhes no rosto a ânsia do saber perdido e a tentativa vã de entender o reino esquecido. Tinha vontade de tudo lhes dizer num repente como lhes convinha mas as palavras fugiam-me para os fazer entender o seu mundo interior. Tinha dificuldade... Uma dificuldade imensa em falar-lhes de ti ou de mim. Quanta ignorância dentro dos seus rostos ávidos. Quanta pressa de transformar o segredo em realidade palpável. Penso que ainda não será desta vez que os farei entender a verdade de si porque não têm tempo (pensam eles) quando o tempo é a única coisa que lhes sobra de todo este caos eterno. É tempo o que lhes sobra e o que sempre lhes restará! E dizem não ter tempo para aprender quem são. Eu continuo à deriva num barco que nem sequer é o meu na tentativa de ser algum dia abalroada por um qualquer desconhecido que me leve ao meu porto de abrigo. À tanto tempo que já navego por águas deste mundo desconhecido que receio me ter esquecido dos meus valores e da minha civilização. Este mar estranhamente navegável e perigoso não me deixa aportar ou naufragar e só o céu e o mar continuam persistentes a assistir a este meu deambular sem retorno. Quando parti eu... Quando foi que decidi ou decidiram meter-me num barco que não era o das minhas gentes e empreender uma descoberta por mundos completamente desconhecidos. Os mundos que aprendi e descobri continuam parados dentro do meu mapa rendilhado e morto sem utilidade nenhuma. Quão inútil parece ser esta minha viagem por entre o desconhecido. Que vim eu procurar neste lugar ou buscar se só penso em regressar. Só penso em voltar do lugar que julgo nunca dever ter partido. As aventuras terminaram continuo à deriva sem gerir o leme que me conduz. É longo o Tempo para mim.


eu, pensamentos, pessoal
 
publicado por lazulli às 15:04
Sexta-feira, 24 de Agosto de 2007

 


EscritoPorLazulli lazulli às 00:41
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Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

Mary Paz - Primeiro Capítulo (12)

(continuação)

 


Um por um, foram deslizando na frente de um homem alto que se resguardava dentro de um dos compartimentos da tenda, sentado numa cadeira em frente a uma pequena mesa de apoio. Sobre esta era visível (apesar da separação do plástico mais ou menos opaco não permitisse grande visibilidade) um pequeno aparelho, que rodava da mão do homem para o tampo da mesa e do tampo da mesa para a mão do homem, com uma incrível velocidade. Através de uma pequena abertura horizontal que rasgava o plástico de ponta a ponta, os prisioneiros iam colocando uma de suas mãos em cima da mesa e eram marcados com uma qualquer numeração, que de onde se encontrava não conseguia distinguir. Depois eram levados rudemente para uma outra divisória, que continha num dos cantos, no chão, uma série de pulseiras electrónicas, onde um outro homem lhas colocavam em torno do tornozelo, através de uma pequena abertura rente ao chão, onde colocavam um pé, sobre um pequeno estrado de madeira velha e gasta. Chegada a sua vez de se aproximar do primeiro guiché, levantou os olhos e deparou com a indiferença personalizada que de mão enluvada, ao ritmo impressionante que já tinha verificado, com a maquineta minúscula já com a numeração devidamente alterada, lha cravou sobre as costas da mão que jazia poisada sobre a mesa. Ao sentir o rude contacto da maquineta quente, um grito escapou-se-lhe, indo bater contra as frágeis lonas que ondulavam ao sabor dos ventos agrestes. Os carrascos, enfurecidos com a sua manifestação de dor, agarraram-na pelos cabelos que ainda mantinha e empurraram-na dali para fora, arrastando-a como a um animal, até a fazer parar junto ao pequeno estrado de madeira velha e puxarem para cima dele uma das suas pernas, onde em torno do tornozelo, lhe colocam também a pulseira electrónica e simultaneamente digitam num computador, o número de registo do código de barras com que a tinham marcado. Na realidade, de todos quanto ali estavam a ser marcados com o código de barras, fazendo lembrar qualquer produto devidamente identificado e legalizado, só ela se havia manifestado à actuação daquelas aberrações ainda existentes, o que provocou neles, uma ira incontrolável, como se o seu grito tivesse perturbado o seu zeloso trabalho. Não entendeu porque é que só ela tinha reagido, quando fora marcada, o calor que emanava da máquina tinha sido de tal ordem, que sua mão havia ficado num estado deplorável, com a numeração e a devida listagem, toda em relevo. Ao toque do ferro quente, sobre a pele, qualquer um desde que sensível, teria sentido a mesma dor que ela sentiu e ter-se-ia manifestado de algum modo. Talvez toda esta gente já tivesse perdido toda e qualquer sensibilidade e verdadeiramente já nem existissem.

Ficou estendida no solo, até os ver desaparecer, com receio que a voltassem a molestar.

Depois que viu o veículo em andamento, após os terem inexplicavelmente abandonado ali, completamente indiferentes, levantou-se e afastou-se em direcção a norte, para tentar perceber onde realmente estava. Espalhados em todas as direcções possíveis e imagináveis até se perderem de vista, seres humanos rastejavam sobre si mesmos, talvez com dores ou com fome, quem sabe? Algo estranho se passava por estas bandas. Não fosse aquele enorme movimento de gente que agonizante se movia, dificilmente, por todo o lado e diria que a guerra não tinha passado por ali e a civilização se mantinha intacta dentro daquele gradeamento que se estendia por quilómetros. Era um absurdo num mundo daqueles existir tal prisão, mas era uma realidade a que não podia fugir. Não sabia propriamente o destino que lhe estava reservado, mas pretendia saber o que estava a acontecer ali, porquê e para quê. Se isto era a reconstrução do mundo, porque então não os tinham tratado melhor? Não chegou a ser acusada de nada, nem nenhum dos que tinham sido presos aquando a ela. Então, porque os trouxeram para ali e o que pretenderiam deles?

Caminhou cuidadosamente por entre toda aquela multidão de mutilados, com a esperança de encontrar uma resposta para tudo aquilo ou talvez quem sabe, encontrar Virgínia.

Repentinamente os seus pensamentos foram interrompidos bruscamente por um “homem” robô, que deslizava em sua direcção. Só agora se tinha apercebido da presença deste novo personagem, parecido sair de um filme de ficção científica. Nunca o terror e a ficção tinham estado tão ligados numa perfeita harmonia de esforços, para um fim comum. E não era só este andróide, que deslizava direito a ela, que existia por ali. Moveu os seus olhos em várias direcções e encontrou-as por todo o lado, enormes torres de vigia plantadas por todo o campo assinalavam a sua presença. Mudas, as torres de vigia emitiam um sinal verde e vermelho ininterruptos, que pareciam conduzir o andróide para qualquer local do enorme campo. Assim conseguia perceber porque não paravam as pessoas um segundo na execução das tarefas que lhes tinham sido impostas.


(continua)

 

longe de tudo e de todos

ficção, literatura, livros

publicado por lazulli às 16:00

Quinta-feira. 23 de Agosto de 2007


EscritoPorLazulli lazulli às 21:47
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Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

Humanidade Escravizada (VIII)

 

(continuação)

 


Apesar de todos saberem qual o verdadeiro valor da vida, o que vão ganhando e perdendo com o decorrer dos anos e também o que lhes sobra no fim, criam seres indefesos e completamente ignorantes deste mundo para que possam reviver na continuidade, a vida que já foi vivida por outros, na esperança de se perpetuarem neles para sempre. Mas quando se está consciente da vida, do mundo e da civilização existente, só porque acreditamos em algo que nos incutiram ao longo dos tempos, não temos o direito de decidir o nascimento de um ser. É desumano fazer um outro vir viver a vida que ninguém quis ter. Sem opção, sem escolha, sem poder de decisão. Todas essas frágeis e inocentes criaturas nascem aqui, sem partilharem da decisão de existir, vivem sem optarem pela forma de vida que mais os favoreceria e morrem sem querer e completamente apavorados com o eterno desconhecido, na esperança de acordarem num mundo semelhante a este.

 

 

 

 

 

 

Filhos de Deus e Filhos do Homem

 


 

 

Será que o Homem nunca entendeu a sua angústia interior? Que a procura da felicidade é o querer ser ele, o se encontrar consigo próprio; e se continuar por este caminho não só não se encontra, como também se perde? Onde está o Homem Original? E este original não se confunde, por mais que a palavra seja igual, com os primitivos Adão e Eva, porque estes nunca existiram. E é fácil constatar esta certeza incerta. Basta que para isso se tenha uma noção aproximada do que é a árvore genealógica de uma pessoa. Tomando como exemplo um qualquer ser humano existente nos dias de hoje e indo recuando passo a passo até à sua origem, o que ao de leve nos parece que terminará num único casal – princípio primeiro desta pessoa – terminará infalivelmente numa infinidade de seres humanos. O seu número só nos é de todo impossível determinar devido à incrível escassez de meios escritos que nos permitam chegar ao fim deste princípio e aí ter a certeza absoluta que jamais qualquer um de nós poderia descender de um único homem e de uma única mulher, mas sim de milhares de homens e mulheres. Consoante recuamos, mais nos surpreendemos com a infinidade de seres que tiveram que existir para que um qualquer de nós possa existir hoje. Isto é, para que hoje possa existir um, tiveram que existir muitos para a sua formação. Bastaria que um único antepassado da cadeia biológica de uma pessoa não tivesse existido para que essa mesma pessoa não existisse. Na composição biológica de um único ser existe a composição de milhares de seres biológicos anteriores. E o aperfeiçoamento biológico de todos estes seres só terminará quando a cadeia humana que os liga entre si, isto é, a linhagem de que são portadores, for quebrada por algum motivo. Se numa única genealogia verificamos isto, que número incrível iríamos encontrar no final da linha se pudéssemos verificar todas as linhagens existentes de todos os seres humanos vivos hoje sobre a face do Planeta?

 

Se tivermos em linha de conta que cada ser tem sempre unicamente, um pai e uma mãe, quatro avós (2 maternos e 2 paternos); oito bisavós (quatro paternos e quatro maternos); 16 trisavós (oito maternos e oito paternos); 32 tetravós (dezasseis maternos e dezasseis paternos), etc., nunca será unicamente dois (Adão e Eva) para existir muitos e sim muitos para existir um.

 

Quer isto dizer que se, por exemplo, duas pessoas, uma Europeia e outra Asiática, começarem por fazer cada uma a sua árvore genealógica até aos seus dectavós (10º), dará por cada uma delas exactamente 1024 antepassados até este momento; mesmo que tenham a sorte de encontrar, entre estes seus antecessores, um que seja comum a ambas, continuarão a existir 1023 antepassados não comuns por cada uma. O que, mesmo assim, será difícil encontrar a partir do momento que estas duas pessoas são oriundas de continentes completamente diferentes, não sendo tão fácil quanto isso a ligação genética entre elas, devido não só às dificuldades existentes por causa do espaço geográfico de cada uma delas mas, também, por uma cultura completamente distinta entre si. Se convidarmos mais um habitante da África e um outro das Américas e se o referido dectavó fosse ainda o mesmo (fantástica coincidência), o número total de antepassados não comuns entre todos eles seria de 4092. E estou apenas a falar de 4 seres humanos.

Por isso mesmo, se continuarmos a partir do antes para o agora, evidentemente nunca chegaremos a conclusão alguma, pois estaremos a partir do falso para o verdadeiro. Daquilo que não temos a certeza de ter existido para aquilo que temos a certeza de existir. É como se o nosso raciocínio seja imediatamente bloqueado. Imaginamos duas pessoas e aumentamos o seu número a partir daí, e achamos isto perfeitamente lógico, mas se conseguirmos fazer o caminho inverso, pegando na nossa própria pessoa e formos andando para trás, abstendo-nos daquilo que nos incutiram como certo, perceberemos facilmente que não pode ser de modo algum aquilo que nos disseram ao longo dos séculos. Se por acaso as árvores genealógicas da humanidade – e não digo da árvore genealógica da humanidade, pela simples razão de que não pode ter existido uma única árvore comum a todos, quanto muito houve várias árvores genealógicas que a partir daí se foram interligando umas nas outras – pararem abruptamente em algum lado, parará sempre em muitos mais, mas muitos mais do que dois seres humanos. Até parece que alguém pretendeu com a «sua lógica» bloquear-nos o pensamento, impedindo-nos de raciocinar. Percorrer o caminho sobre a nossa origem na Terra, a partir de um princípio incerto para um fim certo e não o contrário, não nos esclarecerá nunca de onde viemos nós e obrigar-nos-á a meras suposições. Quantos filhos teriam tido de facto Adão e Eva? E netos? E bisnetos?... E se os tiveram, com quem casaram estes? Uns com os outros? Mesmo assim teriam que ser espantosamente férteis. Além disso, que espécie de seres biológicos seriam eles para nos seus genes transportarem mais do que uma raça distinta, que nos veio a dar origem? Com espantoso assombro verificaremos que quanto mais para trás andarmos mais aumenta o número de pessoas que tiveram que existir para nos dar origem. Daí que nunca um homem e uma mulher deram origem à humanidade e os supostos Adão e Eva em número teriam forçosamente que ser muitos mais. E, segundo o relato bíblico, foram-no de facto, porque quando se trata de dizer que toda a humanidade descende do Adão e da Eva esquecem-se, voluntária ou intencionalmente, que a Bíblia narra a descendência do género humano por duas vezes; uma antes de Noé e outra depois dele. Se até Noé, todos os outros descenderam de Adão e Eva não faço a mais pequena ideia, mas nós hoje descenderemos, quanto muito, de Noé e da sua prole, até porque para trás parece que o dilúvio os extinguiu a todos.

 


(continua)

 

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publicado por lazulli às 11:54

Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007

SintoMe: triste com a humanidade

EscritoPorLazulli lazulli às 23:36
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