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Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

2008/2009

Para todos os que vêm à CasaDeCristal

 

Nunca o tempo me foi tão ingrato para dizer o que sinto.

 

O meu desejo, com amor para todos é: 2009 mais feliz

 

( o tempo não me permite colocar o que escrevi. fica só o meu carinho. lazulli)

 


EscritoPorLazulli lazulli às 17:54
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Domingo, 28 de Dezembro de 2008

Mary Paz - Primeiro Capítulo (15)

 

 

 

 

(continuação)

 

 

Abraçada a seu próprio corpo para se proteger do frio, caminhou cautelosamente em direcção aos iglôs, contornando-os, para ver se encontrava um pano com que se pudesse cobrir. Mas não foi um agasalho o que encontrou nos seus interiores, mas um alçapão de ferro bem no centro de cada um deles.

Ao longe, no horizonte da planície que mal se avistava, duas a três viaturas militares aguardavam silenciosamente. Veículos com rodas num mundo onde já não existia o combustível para os fazer andar. Pelo menos era o que pensava mediante tudo a que assistira e vivera, mas também não deixava de ser verdade que ela havia sido trazida para este local num veículo igual a estes. Onde se esconderiam os restos do poder? Todos "tinham a  certeza" que não haviam sobrevivido, mas uma pequena ou grande parte deles tinha que estar por ali... algures. Gostaria de os encontrar noutras circunstâncias que não estas, para ver o que tinham a dizer sobre tudo quanto aconteceu. Mas, seguramente, este não era o momento ideal para os defrontar. Era tão insignificante mas tão insignificante, que com certeza nem teria tempo de dar o primeiro som, porque não lho permitiriam no exacto momento que se cruzasse com eles. Foram sempre tão sábios e poderosos na Terra desde que a ela chegaram que com certeza continuariam a saber como viver e sobreviver, mesmo no centro do Caos. A eles nada era impossível. Sobreviviam ao próprio Tempo. De um ou de outro modo, nele sempre permaneceriam. Não fossem eles os Senhores do Tempo Infinito. Da Vida Perpétua. Dos ciclos imutáveis da vida e da morte.

Dirigiu-se para um dos veículos. Talvez dentro de algum deles encontrasse com que se cobrir. Desolada, verifica que está vazio. Já sem esperança de encontrar um agasalho e cansada, deixou-se adormecer dentro de um dos carros. Quando despertou, o silêncio continuava a ser dono e senhor daquele lugar semicivilizado e desértico. Era intrigante ainda não ter visto viva alma desde que saíra do monte das criaturas que como ela ali haviam sido depositadas. Decidida a cobrir seu frágil corpo, saltou do carro e dirigiu-se a um dos alçapões. Num mundo cheio de dificuldades, ficou surpreendida por não lhe ter sido difícil abrir o alçapão de ferro, mas também não se demorou a investigar, porque era urgente arranjar um trapo para se cobrir de contrário, não morreria às mãos dos descendentes sádicos do holocausto mas sim às mãos do frio gélido, que lhe cortava a pele.

Encontrou pelo caminho da descida subterrânea, umas escadas que lhe permitiam apoiar os pés doridos, mas nem por isso lhe poupava  as dores que sentia, antes pelo contrário, aumentava-as. Pequenos pedaços escalonados de terra húmida escavados na descida para o inferno mal tinham espaço suficiente para manter os dois pés ao mesmo tempo. Temendo resvalar por ali abaixo ia rezando em silêncio, pedindo a ninguém que lhe permitisse chegar a um lugar mais firme. O percurso tornou-se longo e moroso, parecendo-lhe que descia até ao nada. Várias vezes escorregou quase perdendo o equilíbrio, mas por fim sentiu que seus pés tinham tocado solo duro. Tacteou em busca de algo, mas a verdade é que parecia tudo tão vazio como lá em cima. Finalmente suas mãos machucaram-se contra uma parede rochosa, fazendo-a soltar um grito de dor que ressoou num eco tão assustador que a fez tapar os ouvidos, atemorizada com sua própria voz.

Depois da dor e do susto que havia sentido, tacteou cautelosamente a rugosa parede até que finalmente suas mãos perderam o apoio numa abertura. Sem saber se isto seria ou não um caminho, introduziu-se por ali dentro e caminhou num corredor estreito que parecia não ter fim.

O tempo que tinha passado neste percurso parecia-lhe imenso, mas a verdade é que talvez só na sua imaginação isso houvesse acontecido. A verdade mesmo, era que já não sentia frio. Um calor agradável percorria-lhe todo o corpo, daí que talvez tivesse inconscientemente atrasado a sua marcha. De um modo ou de outro, não tinha ela encontrado ali o que vinha procurar? Se era um agasalho para a proteger do frio o que realmente a motivara a aventurar-se no subsolo, havia-o encontrado na fina membrana de calor que começava a envolver-lhe o corpo nu, deixando-a agradavelmente reconfortada. Se pudesse teria parado a sua busca e aquietar-se-ia enroscada em si mesma numa qualquer pequena concavidade que encontrasse. E, não seria difícil encontrar uma onde pudesse permanecer e descansar pois estas faziam parte das paredes de rocha dura que a cercavam. Mas o seu instinto dizia-lhe que seria perigoso parar nesta altura. Tinha que continuar a caminhada até encontrar uma razão para tudo o que vira. Não fora só um conforto básico que a levara a li nem mera curiosidade e sim necessidade de saber o que estava a acontecer neste Novo Mundo.

Uma luz pálida fosforescente começou a surgir após ter dobrado uma esquina e sua mente foi como que reactivada automaticamente, obrigando-a a pensar onde se encontrava e das cautelas que deveria ter neste local desconhecido. O conforto desapareceu como por magia ao tropeçar num monte de carne gelada que jazia no chão, barrando-lhe o caminho. Um arrepio súbito percorreu-lhe a espinha dorsal, ao aperceber-se no que havia tocado. Todo o chão estava pejado de corpos inertes. Mortos! Todos mortos! Encontrava-se num cemitério macabro. Pelo menos era o que lhe parecia ser este sinistro local. Ia de horror em horror, temendo perceber o que bem no fundo dela mesma, já havia intuído. Este inóspito cemitério, incapaz de realizar o processo da lei evolutiva, da matéria que gera nova matéria, pelo modo como para ali tinham sido atirados, como que aguardando um novo e rápido destino, tinha um fim bem definido que não tardou a fazer-se ouvir num ruído forte e abafado, de calçado pisando o chão, - porque ainda existia calçado, mas não para ela e para os infelizes como ela – cada vez mais próximo de si Quase que simultaneamente, atirou-se para junto dos corpos querendo passar por um deles, pedindo aos deuses que não viessem a aperceber-se da sua presença viva.

Com o rosto apoiado contra o chão viu com pavor a aproximação de três pares de enormes botas, que se movimentavam com rapidez e segurança. Quase deixou escapar um grito de dor, quando uma das botas se apoiou bem em cima dela. Mas o medo do que lhe poderia vir a acontecer se a descobrissem abafou o seu doloroso gemido.

Os corpos sem vida de “seus companheiros”, foram sendo arrastados por enormes mãos, cobertas por negras luvas, num vaivém que parecia interminável. Por fim, pareceu-lhe que a tarefa daqueles homens havia sido terminada. Levantou-se lentamente e seguiu a direcção que estes haviam tomado. Percorrendo silenciosamente o caminho tortuoso que eles seguiam, acompanhava o serpenteado rochoso ao som  dos corpos que arrastados pelo chão num bailado macabro, pareciam não ter pressa em chegar ao seu destino. Todos envolvidos numa fosforescência estranha e macabra, pareciam almas penadas de outro mundo, que de um momento para outro resolveram fazer a sua aparição para brincar aos vivos, num bailado intermitente e diabólico. Em silêncio observava dentro de si mesma este estranho e macabro ritual como se também ela pendurada pelas mãos destes sinistros coveiros, fosse levada para os quintos dos infernos no meio de fogos  fátuos que pareciam brincar com os mortos vivos que por ali se atreviam a andar. Arrepiada dos pés à cabeça, as pernas quase não se tinham de pé fazendo a sua caminhada quase por instinto. Seguia em movimentos firmes mas meio inconsciente, como necessidade obrigatória de chegar ao limiar da sua morada definitiva. Aquela que se não fora a afortunada sorte benfazeja, também seria a sua última morada. Por entre a penumbra esverdeada, ia-se dando conta numa ou noutra curva do que seguia a pouca distância de si. Nem o pavor que lhe apertava o pequeno coração, era suficiente para fugir a esta estranha procissão onde a barreira entre a vida e a morte era tão ténue como um simples respirar.

Uma fosforescência mais intensa, no ar abafado e húmido, começava a iluminar intensamente o corredor, permitindo avistar no fundo dele, uma abertura rochosa envolta numa penumbra esverdeada. Estalactites pendiam ameaçadoras do tecto como gigantescos gumes dispostos a desprender-se a qualquer momento. A visão dos enormes e ameaçadores sedimentos já a curta distância de si, pareciam ter-lhe renovado as forças. As dores de todo o corpo também pareciam ter desaparecido, como se a necessidade de sobreviver ainda estivesse no seu Ser. Nela! Logo nela, que viver era a única coisa que não queria.

Surpreendeu-se a lutar neste estranho e macabro mundo de ninguém, para se manter viva.  Lutava pela sua preservação, agora que estava prestes a encontrar-se de frente com o limiar do Novo Mundo e todos os seus mistérios. Uma voz dentro de si gritava-lhe que fugisse dali antes que fosse tarde, mas os seus olhos não despregavam de algo que ainda não vira mas que sabia existir por trás de todas aquelas fosforescências. Não eram as cores que a atraiam era a necessidade de saber o que estavam a fazer estes tiranos mais velhos que o mundo, que transportaram sempre em si a semente e sobreviveram sempre a todos os fins de mundos, como eternos parasitas resistentes, imunes a qualquer existência. Queria saber como resistiam estes, interminavelmente, a quedas que eles mesmo provocavam e como erguiam os novos mundos em seu próprio beneficio. Como o conseguiriam, desta vez?! Temia tudo! Tinha um horror indescritível, colado a cada célula do seu corpo. Mas a vontade de os olhar de frente e perceber de uma vez por todas quem eram e como eram, era maior que todo o horror. Por isso, irremediavelmente perturbada, avançava firme com o medo estampado no rosto sofrido.

O instinto roçava-lhe as faces, fazendo estas parecer uma máscara dura, que chegava a doer-lhe, como se soubesse sem saber, o que ia encontrar dali para a frente. Mas era já tarde para retroceder e, depois, todo o seu Ser buscava uma certeza do que acontecia ou não ali. Sabia que estava prestes a descobrir a verdade que temia, e realmente ela surgiu tão abruptamente que quase não se havia apercebido que chegara, não fora o sentir-se completamente absorvida por um aposento no qual não via o fundo, devido provavelmente à persistência de uma neblina esverdeada que se estendia por todo o lado.

Só a lembrança do que viu nesse momento a fez estremecer de pavor. Apenas conseguia lembrar-se de se ver parada no meio do inferno verde que havia encontrado, com os olhos esbugalhados de horror.

Este novo quadro que se lhe deparava era de todos, o mais abominável a que tinha assistido depois do holocausto.

A civilização antiga permanecia no seu auge, naquele lugar de morte. Máquinas computorizadas, sofisticadas, estendiam-se por um vasto laboratório, trabalhando freneticamente com um fim definido. Homens envergando batas de várias cores, espalhados por todo o lado, num vaivém infindável, atarefavam-se na lavagem dos corpos e sua dissecação, atirando pedaços de carne humana para dentro de dois tanques cisternas envidraçados, que se encontravam bem no meio do laboratório macabro.

Os tanques eram providos de orifícios vários por toda a sua extensão, que deixavam verter líquidos diversos, mais ou menos espessos, dos corpos já triturados por uma enorme turbina que suspensa do tecto, penetrava bem o interior do tanque e torcidava a carne morta "seus" infelizes companheiros, tornando-os numa pasta viscosa de várias tonalidades que se subdividia meticulosamente quando expelida para o exterior da enorme cisterna envidraçada, enchendo recipientes que aguardavam no lado de fora. Enormes turbinas rodavam constantemente por todo o lado. Um forno, a um dos cantos, alimentado constantemente por variadíssimos tipo de resíduos, ia mantendo em ebulição, nacos de carne humana devidamente separada da restante, até que, da constante cozedura, saía uma pasta em pó, seca e fina.

Porque destruíam assim os corpos de centenas de pessoas? O medo apossou-se de si. Este era o fim para que estava destinada. Ao sentir que as forças recomeçavam a faltar-lhe, procurou onde se apoiar, quando seus olhos dão com latas de conserva bem empilhadas e divididas em lotes de várias cores. Trémula, aproximou-se quanto lhe foi possível, e leu os dizeres inscritos nelas. Um arrepio gelado percorreu-lhe toda a espinha; a resposta para todo este inferno existia, estava ali diante dos seus olhos, numa pilha de latas encarnadas, amarelas, verdes, violeta, etc. O alimento da nova era: Carne humana para alimentar carne humana. food Como podia isto existir?! Quem eram os autores de tão macabro processo?! Que mentes diabólicas haviam concebido esta incrível forma de sobrevivência?! Dispostos a tudo para subsistirem, neste mundo pavoroso, como qualquer vegetal insensível, também não se davam conta do crime que estavam a cometer. Mas, porque pensava ela em crime?! O holocausto, não era já uma prova irrefutável do que “estes” poderiam fazer?! Eles... Não morrem nunca!

Num mundo cheio ou vazio, “eles” têm sempre forma de sobreviver! O mundo é deles! Sempre foi! Não lhes bastou a colonização permanente da Terra! Precisaram também garantir que seriam os únicos viventes, nela, para sempre. E os outros!? Qual era o seu mundo? Será que o tinham ou tiveram algum dia? Ou foram sempre objectos de mera utilização, para consumo destes privilegiados e talentosos senhores do mundo?

Não! Era horrível demais o que via para poder continuar naquele lugar de pesadelo. O encontro com os restos da civilização perdida, metia-lhe medo. Tinha que sair dali! Não havia lugar para onde ir, sabia, mas mesmo assim iria... não ficaria ali. Ali não!

Retomou o caminho que tinha seguido até lá e correu de volta até ao alçapão. Cá fora tudo continuava igual a antes. Indecisa, ficou sem saber o que fazer por instantes. Como sair daquele horrível lugar, onde os restantes verdadeiros humanos, eram tão ou mais irracionais do que os atingidos pelo infortúnio. As viaturas continuavam silenciosamente à espera, e foi para uma delas que se dirigiu. Agachou-se no interior, tremendo de frio, e adormeceu exausta. Aquela luz morta, tão sua conhecida, despertava-a de um pesadelo, para lhe dar um seguimento no seu eterno acordar, enregelada de frio, numa posição fetal, olhava a claridade deste novo velho dia, sem saber bem o que deveria ou não fazer. Perdida, arrastou o corpo dorido até à extremidade do veículo e espreitou para fora deste, mas nada de novo aconteceu. Levantou-se e caminhou dentro do carro para tentar com os movimentos se aquecer e, foi quando, algo lhe chamou a atenção: num canto, estava roupa. Sem hesitar, pegou em algumas peças e começou por se vestir, embora estas fossem exageradamente grandes para o seu tamanho, além de que eram roupas de homem, mas quem é que se iria importar com isso? Aliás, ia já tão longe a sua “necessidade” feminina, que nem sabia se algum dia isso fora sintoma de grande diferença entre seres humanos ou se mesmo chegara a ser algum dia importante. Nunca uma roupa a tinha feito tão feliz. Sentou-se e esperou. E, a sua espera, não foi demorada. Num curto espaço tempo, dois indivíduos entraram no camião e puseram-no em movimento sem saberem da sua presença. Quando sentiu a imobilidade deste correu para fora, embrenhando-se por entre um nevoeiro, que não lhe permitia ver nada.

Já fora daquele lugar horrível, onde o impossível acontecia, deambulou trémula pela imensidão de uma eternidade húmida e móvel, sem saber o que fazer de si própria, vindo a despertar no local onde se encontrava neste momento, sem perceber como fora ali parar.


 

FIM DO PRIMEIRO CAPíTULO

 

ficção, livros

publicado por lazulli às 23:46
Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

 

 


EscritoPorLazulli lazulli às 11:46
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Sábado, 20 de Dezembro de 2008

O Senhor Do Tempo

Saturno - Saturnália

 

 

 

 

 

 

 

 

 



EscritoPorLazulli lazulli às 01:57
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Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

ave

 

 

 

Ave

nos céus

ferida

ensombrada

em sua própria sombra

setas

certeiras

fazem vacilar

seu voo alado

à muito

predestinado

por deuses

dos outros

desconhecidos.

 


Propósitos

ensombrados

deuses zangados

humanos em terra seca

fincam os pés

arqueiam as pernas

atiram firmes

e certeiros

palavras doces e amargas

ao troféu cobiçado

mas não desejado

não amado.

 


Caçam

o sagrado

desprezando

a queda que se avizinha

do alto dos céus

indiferentes

abandonam

a "presa" quase morta

que a pique

vai tombando

ferida

suspensa ainda

pelo éter

amigo

que embala

no seu colo

a ave

cada vez mais ferida

impedindo

a queda abrupta

no mundo desconhecido.

 


Adiado

fica

o voo alado

o sagrado

o desejado

a promessa

o incumprido

fica

mergulhado

num rio

esquecido

o Prometido.


Não sabe falar

a língua dos homens

a ave

exprimir

o seu sentir

sagrado

destinado

unicamente

ao sentido.

 


Não sabendo voar

nem tendo asas

os homens

não a querem alcançar

e sim feri-la

enganando-a

com as armas

mortíferas

com que nasceram

as do engano

do prazer

da mentira

da indiferença

e, dizem-se

orgulhosamente dignos

da sua vitória

do seu desprezo

pelo mais frágil

mais débil.

 


Mergulhados

no rio do esquecimento

do antes do agora e do depois

interpretam-na

de acordo

com os seus sentidos

atribuindo-os

à que já cega

pelo sangue

que de seus olhos

corre

morre devagar

na sua própria queda

em direcção

ao nada.

 


Abandonada

não abandona os seus propósitos

longínquos

não pode

não quer

não consegue

e morre

com eles

dentro de si

para sempre.

 

 

Esperança efémera

quimera impossível

abandonada desprezada

ignorada

por deuses e homens

senhores e escravos

entrega seu corpo à terra

e deixa-se

ir caindo

à espera

de nada

coisa nenhuma.

 


Vacilante

voa desequilibrada

sobre o nada

abandona seus propósitos

de ter

de proteger

de saber

de dar e receber

de amar

o impossível.

 


A pequena sombra que projecta

e se aproxima

dos homens

caçadores exímios

tarda

danificada

pela língua

não entendida

de mundos diferentes

com significados diferentes

por tão má interpretação

à sua tão indecifrável

linguagem

perde

o Prometido

encontrado

e perdido.

 


O rio

do esquecimento

corre

são lágrimas

que verte

lá do alto

enquanto vai caindo

chorando e sorrindo

por tão mau entendimento

entre os que caminham sobre a terra

e aqueles que têm asas

pequenas

e frágeis.

 


Lágrimas

que continuam a cair

no rio

enchendo

e florindo as margens

de flores

que não existem

são de mágoa

de dor

de culpa

por esperar

por aguardar

por procurar

por encontrar

e por perder

por morrer

por não querer acreditar

no impossível.

 


Desespero

por não se fazer entender

e deitar tudo a perder

na tentativa

de usar

a língua

que não é sua

nem deles

e sim

dos tradutores desconhecidos

maus copistas

deste mundo

sempre distante

e incompreensível.

 


Não existe um sentido

nas palavras

existe um sentido

para as palavras

vindo de longe

de pra lá do mundo

antes ainda

do Tempo e do Espaço

se formarem

de passarem a existir

se realizarem

e concretizarem.

 


Na alma ferida

perdida

desacreditada

continua

o nada

de si.

 


Asas

que projectam

à terra seca e árida

palavras sem poder

de um tempo esquecido

de um tempo

onde dois

eram unicamente

UM.

poema, poemas, poesia

 

publicado por lazulli às 00:40
Domingo, 9 de Setembro de 2007

EscritoPorLazulli lazulli às 13:53
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Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

Humanidade Escravizada (XI)


(continuação)


 

Claro que para entender a sua origem e o porquê da sua existência, bastaria que o Homem pensasse seriamente na função da matéria e dele próprio, tentando perceber se a matéria existe para que o Homem possa existir ou se, pelo contrário, é o Homem que tem que existir para que a matéria possa existir e qual destes dois beneficia ou perde com a existência do outro. Se por acaso for o Homem que dá vida à matéria, então só a existência do Homem é que faz viver a matéria. Só ele é que move esta imponência «morta». É o escravo da matéria. O escravo que a mantém viva ao longo dos tempos. O que seria da matéria se o Homem não fosse seu escravo? Com toda a sua inteligência, ela só por si, como viveria? Se, por acaso, esta junção de matéria e ente coexiste porque quer ou se uma está sujeita à outra irremediavelmente ou não, é algo que aparentemente ninguém sabe. Com certeza, se o Homem começasse por analisar, por exemplo, o início da sua formação física e em simultâneo o seu sentir interior, talvez dê-se o primeiro passo para um entendimento sobre o porquê da sua existência. Mas, realmente, são já tantos os estudiosos que se dedicam a este tema que adverti-los da verdade a eles, os entendidos na «matéria», cheios de diplomas a confirmara sua douta sabedoria, seria no mínimo caricato. E a verdade, é que com a Verdade diante de si não a vêem. Pior que o cego é aquele que vê e não quer ver, isto sim é uma verdade. É que ninguém já parece acreditar seja no que for, mas continuam fingindo que acreditam. Ninguém mais parece preocupado se é verdade ou não o que a tradição diz. Parece que têm consciência que de nada lhes adiantaria a procura da verdade. Até já dizem que o que é verdade para um pode não ser para outro. Pergunto-me, imbecilmente, se a verdade só por si não deveria ser uma única, igual e imutável para todos. Num mundo, onde a mentira é conhecida de todos, parece que ninguém quer pôr a hipótese que vivemos assim porque alguém quer uma enorme mentira. Mas, se todos os homens mentem e todos os homens falam a verdade, porque será que o ser humano não se interroga se foi mesmo a verdade que lhe transmitiram ou se, pelo contrário, lhe mentiram? Aliás, há tantos e tantos motivos para pôr em dúvida o porquê da vida, que não entendo toda esta inércia humana, esta letargia, este desinteresse por si próprios, como se de dentro deles viesse um aviso de perda de tempo na busca desta verdade tão necessária a todos. Mesmo assim, continuo a aguardar o som de qualquer voz que chegue, de alguém a dizer a verdade de uma vez por todas, acabando com este mito horrendo de que a verdade não existe. Até pode ser. Aliás, neste mundo tudo pode ser e continuar a ser até ao infinito. Mas eu continuo a pensar e a sentir, daí que tudo farei, em cada segundo desta minha parca vida, para tentar impedir que continuem a manter esta farsa existencial vil e velhaca, alegando ser este o modo de vida perfeito, de uma civilização perfeita, num mundo também perfeito. As consequências das suas tentativas de melhorar toda esta perfeição imperfeita atingem a plenitude do engano perpétuo e, cada vez mais, o ser humano deixa de ser ele próprio para passar a ser os outros. Mas, para ser possível levantar este pesado e escuro véu que paira sobre todos nós, sobre a nossa origem e a nossa existência, seria necessário que o homem acabasse com o desinteresse que tem por si próprio e acreditasse que a verdade existe algures bem guardada à espera de ser encontrada. Talvez começando por investigar onde, quando e porquê se iniciou o último começo de toda esta trama diabólica ao desprevenido ser humano que caiu neste universo sempre em expansão, com a memória desgastada de um passado longínquo real e doloroso. Que tivesse consciência que só foi acatando tudo quanto viu e ouviu porque a dor apregoada era-lhe familiar, como uma outra dor que dentro de si estava mal lembrada. E chegou o dia em que a dor que não existia passou, de facto, a existir, substituindo a dor antiga e apagando de vez com essa lembrança remota de um tempo esquecido: A sua origem. Ao acatar bem e mal a transmissão de séculos, a sua resistência foi diminuindo e, hoje, depois de todas as ilusões e desilusões, não há nada em que acredite porque a incompreensão e a dor dentro de si tomou uma forma alarmante, parte integrante desta trama tão profunda que é o Planeta em que vivemos.

 

(continua)

 

quase no fim da cruzada

ensaio, homem, livros, mulher, vida

publicado por lazulli às 16:27 (Do Livro De Ensaio Sobre O Homem "Humanidade Escravizada"

Quarta-feira, 5 de Setembro de 2007

SintoMe: ... a olhar meca de soslaio

EscritoPorLazulli lazulli às 00:46
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