Segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Humanidade Escravizada (XXIX)

 

 

XXIX





A Terra é de Todos Mas Não Para Todos

 

 

 

 

Toda a sua História não tem sentido e eles sabem-no tão bem como eu ou, então, são muito mais estúpidos do que eu penso... Mas não creio, sabem com certeza o que estão a fazer. Para que fez Deus o homem? Para que quer Deus que o adorem? Por acaso não serão eles que querem ser adorados pelos homens como se fossem Deus? É que o tal Deus de que muito falam parece tão mortal nas suas bocas, tão semelhante a eles nos perdões e nos castigos, na sua forma de ser, no modo como gere toda a Humanidade, não lhe dando satisfações de nada, apenas dizendo, que é um Deus Todo Poderoso que sabe tudo e que nós temos de acreditar cegamente nele e prestar-lhe homenagem através dos seus preferidos, possibilitando-lhes assim a existência na maior das abundâncias. E, realmente, não são estes seus preferidos os donos e senhores de toda a ­Terra, apesar de Deus a ter dado a todo o Homem (embora não perceba porque teria ele feito isto e em que é que isto traria vantagens a ele ou mesmo ao próprio Homem) para que nela pudesse poder viver livremente. Se Deus realmente deu a terra a todos, não deveria esta ser de todos por igual e todos nela viverem livremente? É que, embora continuem a afirmar as vontades e os desígnios deste seu Deus, de todos serem donos da terra e nela poderem viver livremente, a verdade é que a maioria da humanidade não tem nem um pedaço de terra para viver e muito menos o direito à liberdade que lhe foi concedida por este Deus. Porque será que os religiosos, eclesiásticos, senhores, reis, nobres, ministros, presidentes, políticos, etc., não cumprem com a lei deste seu Deus? São os primeiros a ter mais do que aquilo que é deles, só nas suas mãos a terra e o domínio dela, para já não falar no domínio dos seres humanos em geral, mantém-se anos e anos sem conta. Quem lhes deu essa terra? Foi Deus que disse que era deles? Que entendeu que poderiam ter condados inteiros onde mais ninguém poderia entrar? É certo que embora o tempo da Idade Média já seja ido há uns séculos, as ideias que regiam a civilização dessa altura não são muito diferentes das de hoje. O que nos poderia levar a supor que, de facto, Deus deu-lhes de mão beijada todas estas regalias especiais. Nesse tempo, a questão das desigualdades entre os homens na Lei de D. Fernando de 1375, in Ordenações Afonsinas, Livro II, títs. 63 e 60, diz:


63 - «Quando Nosso Senhor fez as creaturas, assim as razoáveis, como aquelas que carecem de razão, não quis que todas fossem iguais mas estabeleceu e ordenou cada uma em sua virtude e poderio, departindo-as segundo o gráu em que as poz: e bem assim os Reis, que em lugar de Deus em a terra são postos, em as obras que hão-de fazer de graças ou de mercês devem seguir o exemplo do que ele fez...»


60 - «Porque a Justiça é sobre todos os bens e é virtude mais alta e mais proveitosa e muito necessária a todas as cousas e sem ela nenhuma obra não é de louvar; e segundo disseram alguns sabedores, foi achada para ajuda e defesa especialmente dos pequenos, menos poderosos que os maiores; e assim pela lei de Deus como pela lei dos homens é cometida e encomendada aos Reis e a eles é mais própria que a outro nenhum para guardar e defender cada um no seu e não deixar nem consentir a nenhum de fazer obra de poderio e de prema (opressão) contra os seus sujeitos (súbditos)........ E ainda segundo disseram os Santos Doutores da nossa santa fé católica, assim como entre os homens Deus fez mais alto o Rei e lhe deu maior estado, assim ante Deus nas penas do outro mundo, se justiça não fizer ou se deixar de a fazer terá o principal lugar. E porém na obra desta justiça os homens bons e grandes do reino, como braços do Rei, devem a eles ser ajudadores


Esta Lei de D. Fernando de 1375, diz-nos claramente que Deus não nos fez todos iguais. Assim, as criaturas razoáveis são os senhores que, pelos vistos legitimamente, exploravam os outros e as criaturas que carecem de razão, devemos ser todos nós, os trabalhadores incansáveis nesta escravatura permanente sem fim à vista. Destino duro o nosso, não? Se alguém julga que esta é uma Lei da Idade Média, que já não existe e que só existiu no passado, por ignorância do Homem de boa fé, desengane-se, pois nos nossos dias, no Catecismo da Igreja Católica, temos a mesma ideia, apresentada de um outro modo, mas que quer dizer exactamente a mesma coisa. Mantendo a sua arrogância de eleitos e não querendo perder a ambição de governar e explorar os homens para sempre, substituíram neste texto actual, «virtudes» por «talentos». Resumindo, mudaram as palavras, mas não lhes retiraram o sentido. Como referência, aqui está uma transcrição de (Santa Catarina de Sena, Diál. 1,6), contida no Catecismo da Igreja Católica (Texto típico latino - Libreria Editrice Vaticanna, Città del Vaticano: pág, 419 - II). Sobre a igualdade e diferença entre os homens:


«Ao vir ao mundo, o homem não dispõe de tudo o que é necessário para o desenvolvimento da sua vida corporal e espiritual. Precisa dos outros. Surgem diferenças relacionadas com a idade, as capacidades físicas, as aptidões intelectuais ou morais, as permutas de que cada um pôde beneficiar, a distribuição das riquezas. Os «talentos» não são distribuídos por igual.» «... estas diferenças fazem parte do plano de Deus, que quer que cada um receba de outrem aquilo de que precisa, e que, os que dispõem de «talentos» particulares, comuniquem os seus benefícios aos que deles precisam. As diferenças estimulam e muitas vezes obrigam as pessoas à magnanimidade, à benevolência e à partilha, e incitam as culturas a enriquecerem-se umas às outras: Eu não dou todas as virtudes por igual a cada um... Há muitas que Eu distribuo de tal maneira, umas vezes a um, outras a outro... A um a caridade, a outro a justiça; a este a humildade, àquele uma fé viva... Quanto aos bens temporais, pelo que respeita às coisas necessárias à vida humana, distribuí-as com a maior desigualdade, e não quis que cada um possuísse tudo o que lhe era necessário, para que assim os homens tenham a oportunidade de, necessariamente, praticar a caridade uns para com os outros... Eu quis que eles tivessem necessidade uns dos outros e fossem meus ministros na distribuição das graças e liberalidades que receberam de Mim»


Incrível como estas palavras sem o menor conteúdo de verdade continuam a ser usadas por uns e aceites por outros depois de tantos anos nos separarem da Idade Média, que antes diria da Idade Negra da mente humana. Utilizar ainda hoje os seus conceitos de vida, levam-me a pensar que em nada adiantou as revoluções e os esforços dos mais humanos para alterar a sociedade de modo a que todos pudessem beneficiar da vida e dos bens. Ainda continuam a ser os pobres a praticarem com os ricos esta caridade forçada e não o contrário. Como se não fosse já mais do que suficiente Deus os ter estigmatizado, quando decidiu não lhes dar «talentos particulares» que lhes permitiria, pelo menos, uma melhor sobrevivência. Mas como Deus decidiu distribuir com a maior desigualdade as coisas necessárias à vida humana, lá diz o velho ditado: «ricos e pobres sempre os haverão» Para provar que se continua a fazer o que Deus quer, basta que nos lembremos levemente o que são os impostos e para que servem, as diferenças de salário que existem entre todos, o pagamento de cada um aos serviços prestados por outrem, e não nos esquecermos também das esmolas que enchem os cofres de todas as igrejas do mundo, para sustentar aqueles milhares de parasitas que vivem no maior dos regalos, à custa dos outros. Depois de tudo isto, podemos contar os pobres de todo o mundo, mas teremos que ter máquina de calcular porque, de contrário, não conseguiremos fazer a conta. Propriedade com caridade não combinam. E a propriedade – lei feita por eles como se fosse uma das leis de Deus consagrada na célebre frase: «Dai a César o que é de César» – é de uma hipocrisia inaudita e põe por terra esta tão sagrada vontade de Deus sobre a caridade de uns para com os outros. Daí que os ministros de Deus, como dizem ser, praticam uma caridade tal que as crianças do mundo inteiro não têm nem amor nem dinheiro. E, se por acaso, chegam a praticar a dita caridade como o Deus deles quer, praticam-na com o dinheiro de todos os desfavorecidos e esforçados. A realidade é que os que possuem as tais «virtudes» ou «talentos», que provocam a desigualdade entre os homens, só os possuem exactamente à custa destes. E com estes bens preciosos com que Deus os dotou – que deduzo serem a capacidade de explorar outro ser humano vivendo comodamente à custa dele e com o dinheiro dos milhares de desprivilegiados que não tiveram a sorte de serem dotados por Deus destes dois valores tão preciosos – dão-lhes, quando dão, esmolas para sua própria salvação. Tudo isto é absurdo e desumano. E, embora continuem a insistir que Deus assim quis o mundo e assim determinou, não creio de modo algum nesta suposta verdade.

A única coisa que sei é que nos enganaram e tem que haver um motivo para o terem feito. Na vida só encontro um: o poder do homem sobre outro ­homem. Deus nunca quis coisa nenhuma. Foi o homem que quis, que executou e realizou todas as obras que existem sobre a face da Terra. Ou haverá algum idiota que ainda não tenha pensado que Deus não é nem pode ser assim. Porque se assim fosse, isso significaria que este Deus de que tanto nos falam, se não é o próprio homem é-lhe alguém muito chegado. E viveis vós, todos vós, com o fantasma desse Deus enigmático que aceita, aprova e cria todas as diferenças sociais entre o seu próprio povo. O povo que ele criou com tanto «amor». O mesmo povo que ele mesmo dividiu e subdividiu em castas, começando por decidir que uns dariam os seus magros recursos a quem falasse dele e lhe erigisse estrondosos monumentos para adoração, ablação, etc. Parece que este Senhor de todos os senhores nunca se sacia por completo, à semelhança dos seus virtuosos e talentosos consignatários. Continua a precisar do sacrifício de toda a humanidade, de modo a que os seus templos frios e a cheirar a mofo prevaleçam para sempre. E para quê? Para nem tão pouco servirem de abrigo a tantos desesperados e desamparados. É, mais uma vez, a falha da prática da caridade e, desta vez, na casa do próprio Deus. Que pai deixa o filho ao frio e não o abriga sob o seu tecto? Monos sem utilidade é o que são todos estes monstros de arquitectura grandiosa, erguidos graças ao esforço de milhares de crentes/escravos e ignorantes, fiéis incontestados destes emaranhados de Poder, que vivem no medo constante deste Deus maravilhoso... e não é para menos! Um Deus que, como o homem, castiga, quer ser adorado, ama os ricos e quer que continuem a existir pobres; que entende que o pecado está mais relacionado com a propriedade de bens, do que com o ser humano propriamente dito; e que, ainda por cima, sem pudor de espécie nenhuma, recebe, para perdão dos pecados dos seus ministros corruptos, o dinheiro ganho por toda a humanidade sacrificada por eles.

 

actualidade, democracia, dogmas, ensaio, estado, existência, filosofia, futuro, história, homem, humanidade, inquisição, justiça, lisboa, literatura, livro, livros, matéria, mentira, morte, mulher, mundo, nacional, nação, passado, pensamentos, port, porto

publicado por lazulli às 00:36
Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

EscritoPorLazulli lazulli às 22:36
link do post | comentar | AdicionarAosIntemporais

UmaEstranhaNumaTerraEstranha


lazulli

sempretriste

. 6 seguidores

VerNaCasaDeCristal

 

Intemporais

... cega ...

Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


SonsDaMinhaAlma

SonsDaMinhaAlma

Setembro 2017

Janeiro 2017

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Abril 2016

Março 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Junho 2013

Dezembro 2012

Outubro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Janeiro 2012

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

EscritosRecentes

cristal

Quando a Natureza fala ma...

,,, bicéfala,,, a Serpent...

em luta pela liberdade

São lágrimas, senhor, são...

alma

A Promessa

... desisti

manto negro

... vivo em Tiamat?!

... do livro de Dzyan...

Ming's

O Universo em mim

Tentação

Quem Criou Deus...

LeioEstes

AsMinhasFotos/Imagens

DireitosDeAutor

Page copy protected against web site content infringement by Copyscape Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. OsEscritosDesteBlogEstãoRegistadosNoIGAC Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. DireitosDeAutor É expressamente interdita a reprodução parcial ou integral de todos os escritos deste blog por qualquer processo, incluindo a fotocópia e a tradução e transmissão em formato digital. Exceptua-se a reprodução de pequenos excertos para efeitos de recensão crítica ou devidamente autorizada por escrito pela AUTORA do Blog CasaDeCristal, lazulli. Peço desculpa aos que me lêem por ter que ser assim e obrigada. lazulli - (inp) M.D.L.M.D.F.D.C.B.

NoPlaneta

Flag Counter 34 561

ÚltimasMemórias

Bem Vindo à CasaDeCristal, paulo joséConsegues exp...
paulo jose juliopra ke brincar com santo nome de d...
Vasconcelos.... como esqueceria eu, o seu blog, on...
Saúdo o seu regresso com saudade. Desejo-lhe os ma...
Parabéns pelo seu blog, muito interessante. Estou ...

subscrever feeds

TraduzirOBlog

Google-Translate-Chinese (Simplified) BETA Google-Translate-English to French Google-Translate-English to German Google-Translate-English to Italian Google-Translate-English to Japanese BETA Google-Translate-English to Korean BETA Google-Translate-English to Russian BETA Google-Translate-English to Spanish
Google Translation

OsQuatroElementos


glitter-graphics.com PorqueAVerdadeNãoSurge AHumanidadeChoraPeloSangueDerradoDosInocentes