CasaDeCristal, lazulli, eu, mary paz, humanidade escravizada, a grande mãe, 2006, 1990, poesia. livros
Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Dissertação Filosófica

 

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... há procura de mim (2)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Era ainda muito pequena, pelo menos o corpo que a cobria, era-o. Ainda não tinha a força do desenvolvimento, mas já caminhava, já falava, já pensava e já sentia. E o que sentia esta criança planetária? Vivia entre dois mundos, no mínimo. Poucos eram os instantes de tempo que descia vertiginosamente a este mundo concreto e o olhava e via. O resto do tempo, não tinha memória. Pura e simplesmente, não existia. Não era. Simplesmente, não era. E assim foi, por muito e longo tempo. Eram tão escassos estes momentos reais, que traz na memória, que os pensamentos deste tempo passado, continuam a ser presente, mas não sabe se serão futuro.

Uma das vezes, a criança, que não tinha mais de 5 anos; do fim de uns poucos degraus de escadas de pedra nua, que davam acesso à casa onde morava - hoje, disso tem consciência, porque por essa altura, a criança, é como se tivesse acordado ali mesmo, naquele instante, assim, sem mais nem menos. O primeiro pensamento. O primeiro sentir. A primeira interrogação. A primeira surpresa. E, também, a primeira certeza de si. Da diferença. E, até, da superioridade inferior, como se, de certo modo, os papéis estivessem invertidos; viu uma mulher ainda jovem que a olhava e sorria, carinhosamente. A criança, parada, fitava-a com complacência e devolvia o sorriso à sorridente e confiante senhora, que não sabia quem era ou o que era e que via pela primeira vez. Pelo menos, foi aí, naquele exacto instante, que teve consciência da sua existência. Nesse momento não sabia o que era uma mulher, uma jovem, nem tão pouco um ser humano e muito menos o que era uma mãe. E foi esta não consciência de mãe, por essa altura, que mais tarde a fez pensar, porque não teria ela tido o sentimento igual à das outras crianças, pois se até um simples bebé reconhece a voz e o rosto do "leito" materno?! Num pedestal mental inimaginável para tão pequena criatura, observava, tranquilamente, parecendo estar mais, a fazer um sereno reconhecimento do momento, do que ter qualquer espécie de sentimento ou outra coisa qualquer, como se fora uma pequena divindade, acabada de despertar, mas que de certo modo, saberia o que iria encontrar. Só tinha que apreender e aceitar. Esquisito. Estranho, o pensamento (se se pode chamar de pensamento) desta pequena e serena criatura, enquanto observava, a jovem senhora.
Só muito mais tarde, a criança percebeu a importância e o insólito deste instante solto no tempo.

Daí, "cruzando-o" com diversos factores, comparando-o com outras emoções reais, analisou. Agora, com a capacidade de raciocínio inerente a um ser, verdadeiramente, pensante. Achava estranha, aquela criança. Ela mesma se interrogava, sobre a sua natureza. Isto quando, lhe ia sendo permitido momentos raros de lucidez, lúcida! Pois, não foram sempre lá muito frequentes. Porque aquela apática não existência, daquela primeira vez, estava muitas vezes presente.

E, assim, olhou à distância esse momento e registou-o, por ela mesma, hoje pessoa, entender que foi o primeiro momento, em que acordou para a vida! Se bem que por essa altura, lhe fosse completamente inexistente.

 

Reconhecia na dita senhora, quem quer que esta fosse, que esta gostava dela e parecia conhece-la. Mas ela, a criança, não a reconheceu ou conheceu. Sabia que ela estava ali para tomar conta dela e, o seu pequeno pensamento, foi de lamento por tão grande fardo, mas confiante e nada perturbada, observava-a e, por um instante, chegou até... lembra-se perfeitamente... de ter tido pena dela, mas que, um dia... ela seria recompensada, só que não sabia. Mas a pequena criança, sabia. Sempre sabia o que não sabia. E isso reconfortava-a, já ali. Mas... pena?! Aqui, em "bom português" é que a "porca torce o rabo". Pena?! Pena de quê?! Foi um Deus que nos acuda quando teve consciência disso mesmo! Porquê e qual a razão, pela qual a criança teria tido pena da mulher?! Há distância... não via porquê, tal "sentimento". Mas ele existiu! Como existiu! Daí foi querer entender da Vida. Dos seus porquês. De Tudo quanto o mundo continha. Queria saber de si. E... foi em procura de si mesma. E... soube! Soube porquê! A única coisa que não soube naquele momento, foi o que era uma mãe. Deveria, sabê-lo?! Talvez na tenra idade seja normal uma criança não reconhecer a própria mãe. Talvez. Mas não foi isso que aprendeu no decorrer da vida. Até porque, aconteceram algumas outras raríssimas, situações semelhantes, ao longo de todo o percurso. Uma delas com o próprio irmão, que por mais que a um metro de si, quase lhe gritasse para ela o ouvir, ela continuava estagnada em frente a ele, sem entender quem era ele. ou o que era ele. Aí, lembra-se que confusa, tentava desesperadamente perceber o que lhe estava a acontecer. Mas, assim como a longínqua criança, ligava-se ou desligava-se ou lá o que fosse, sem que ela disso tivesse qualquer tipo de consciência. Isso valia-lhe uma reprimenda, muitas vezes, pelas suas "estranhas" brincadeiras. Nunca esclareceu. Nunca justificou. Em silêncio, retornava à realidade, normalmente, e não ligava para o assunto, como se de algum modo soubesse, o porquê de tudo isso. Dizer que a criança lá do tempo ido, ficou de algum modo traumatizada com este seu primeiro despertar, não corresponde à verdade, porque a criança dessa altura, na sua não sabedoria, sabia muito mais do que a criança de hoje. Porque no nada do seu saber, estava tudo quanto ela necessitava saber. Porque o que a criança hoje sabia, as coisas necessárias e não necessárias, aquelas que se perderão no tempo, delas nunca teve tanta necessidade assim. Aquelas que se esfumarão sem relevância nenhuma. E o único conhecimento que se manterá perpetuo, é aquilo que veio consigo. O imutável saber do Nada. Aquele que ela ama verdadeiramente. Aquele porque luta, com todas as forças, para nunca lhe ser roubado. E ela vencerá sobre todas as coisas. Defrontará todas as coisas, para levar incólume o seu pequeno entendimento. Aquele daquela criança que tanto a perturbou, no decorrer do tempo, como a fascinou. Aquela que ela protegerá sempre, à falta de protector à altura. Aquela que não precisava do entendimento das coisas. Era. Pura e simplesmente, era. E... continua a ser. Depois... sempre viveu, naquilo a que ela chamava de... o seu mundo. Mundo que foi conhecendo lentamente. E... conhecendo-o, amou-o ainda mais e percebeu os porquês das coisas. Os meandros do que se move. O infinito labirinto, onde tudo navega preso. Onde as memórias se perdem. Sempre. Se misturam. Se cruzam. Enfim, um manancial assustador de poder infinito. E... foi-se cada vez mais, afastando deste, preservando a única coisa que valia a pena preservar. Assim, solitária, permanecia só na sua própria aparência. E não reconhecia as leis e os conceitos, que não eram seus, desde o dia em que despertou. Cumpre a mais difícil tarefa: Nunca deixar de ser nada, num mundo cheio de tudo.

 

divagações

publicado por lazulli às 00:48
Terça-feira, 18 de Março de 2008

EscritoPorLazulli lazulli às 00:37
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