CasaDeCristal, lazulli, eu, mary paz, humanidade escravizada, a grande mãe, 2006, 1990
Domingo, 20 de Setembro de 2009

Mary Paz - Segundo Capítulo (14)

 

 

XIV

 

 

 

 

 

Enquanto se dirigia até onde a aguardava a majestosa Águia-de-Cabeça-Dourada que reflectia ainda mais os raios de sol que a si chegavam e nela permaneciam como prisioneiros voluntários da sua deslumbrante e extensa penugem, fazendo da águia como que uma extensão da fonte energética, inesgotável, contida no sol-brilhante de milhões de cores em constante mutação no seu permanente contacto com o ar, finíssima cambraia transparente e multicolorida, ia ansiosa e vagarosamente, pisando o solo de areias de fino pó doirado e observava as montanhas de luz, onde a pedra dura e fria, única que conhecia, era completamente substituída por tantas pedras preciosas que nem as conseguia quantificar, mesmo que em calculo manifestamente deficiente, tal era o reino mineral, deste maravilhoso mundo de cores vivas e brilhantes, ora transparentes, ora opacas, ora incolores, com colorações inimagináveis, em constante transformação não do seu conteúdo mas sim da sua aparência visível, fosse esta piramidal ou com uma outra configuração geométrica qualquer, era-lhe completamente impossível, absorver as cores que emanavam de todo o lado como tesouros únicos a céu aberto, que resplandeciam a sua magnânima beleza. As rochas deste mundo, gemas genuínas, raiavam e expandiam com as suas milhares de incalculáveis facetas, para todas as direcções, as suas cores infinitas e em constante movimento, ao toque de cada partícula de ar e sol. Estonteada com as cores, carmim, madre-pérola, rosa, lazulli, esmeralda, ametista, rubi, cristal, topázio, safira, águas-marinhas, etc.. , não conseguia conter em si, tanta luz e tanta cor. Belo! Tão belo, que já não sabia se o conforto do calor, ameno, que ia penetrando suavemente todas as suas partículas, tinha a haver com a magnífica visão que seus olhos, extasiados, miravam em ininterrupto encantamento ou se era efeito, da serena harmonia da luz de milhões de cores. As ténues alterações do sol, quase imperceptíveis, permitiam que uma infinidade dos coloridos diamantes, alterassem as suas facetas de um tom para outro em escassos instantes de tempo, se é que este, aqui existia. Descrever este mundo, não conseguia dentro de si. Só conseguia senti-lo. Absorve-lo. Os pensamentos fugiam-lhe, para começar a dar lugar a uma fonte inesgotável de paz. Da paz sempre desejada. E era este enigmático mundo de cor que com amor, lhe dava finalmente aquilo que sempre ambicionara e sempre procurara.

 

Serena, em total quietude, a águia observava toda a sua fascinação e sorria. Mary, percebia que esta não precisava transmitir o seu sorriso movimentando um único músculo que fosse do seu descomunal corpo. Seus olhos falavam o seu pensamento. Transmitiam toda a sua doçura interior. Toda a sua compreensão, perante a criatura tão insignificante que era Mary. Estonteada perante as duas meigas esmeraldas que lhe sorriam; tão meigas, que a escassa distância daqueles olhos esmeraldinos, sem desprender o seu próprio olhar daquela rara beleza de divinas esmeraldas que continuavam a fitá-a demoradamente, teve um impulso momentâneo, de correr para elas e nelas se alojar para sempre. Descansar dela mesma. Como se pudesse entrar nos olhos que a fitavam e encontrar-se com o amor infinito que deles emanava. Mas refreou o seu mais intimo desejo e não encurtou a já pouca distância que a separava desta e, sim, endireitou seu corpo um pouco mais, alisou com as mãos, os farrapos sujos que a cobriam e, lentamente, sentindo o movimento do ar a cada movimento seu em espirais que se perdiam dentro do próprio ar, finalmente, tocou timidamente a primeira penugem que encontrou ao alcance da sua pequena mão.

A este contacto, mágico, o ar comove-se e queda-se por um instante, como que para a deixar sentir toda a ternura do seu ente.

Controlando a emoção que sentia, impedia voluntariamente suas mãos de agarrarem o ar e irem tocar nas penas da gigantesca ave, abraçando-as num abraço meigo e profundo. Queria senti-la para sempre. Mas ali, naquele mundo etéreo, era ela quem nada tinha e nada era e a quem por razões que ainda desconhecia, tinha sido permitido movimentar-se, tal fantasma, num mundo verdadeiramente etérico. Depois de tudo isto, descobria que afinal nunca soubera sonhar. Seus sonhos tinham sido pobres em imaginação. Escassos em forma e conteúdo. Demasiado aquém do que, agora, podia presenciar. Percebia que desde que desaparecera da velha Terra, tudo quanto vira e sentira, nunca tinha existido antes. Nunca.

 

Tentava... controlando a emoção do seu pequeno coração e as interrogações que a angustiavam... acalmar toda a sua agitação interior. Mas esta morria no canto de sua boca, sempre que um imperceptível movimento parecia querer surgir, podendo manifestar toda a ebulição que dentro de si permanecia, pelo inexplicável mundo que a envolvia, no seu todo.

 

A sábia águia que continuava a olha-la docemente, não quis prolongar por mais tempo o seu êxtase, poupando-a à intensidade de sentir tão profundo. Sorria aos pensamentos de Laurema e verificou, feliz, que a tinham recuperado de vez. Ela não voltaria à sujeição da matéria viva, pois começava a tomar consciência da verdade de si mesma.

- Laurema!... Despertaste para a tua verdadeira existência.

 

 

Ouvir vozes dentro dela não lhe era de modo algum surpreendente. Convivera com elas toda a vida. Surgiam inesperadamente dentro do cérebro, soltando sons tão distintos que parecia estar a ouvir as conversas do mundo inteiro, ora isoladas ora em longos diálogos, como se desconhecessem a sua presença. E muitas desconheciam. Assim como ela. Pelo menos nisso, tinha a felicidade de não conhecer a densidade dos portadores. Vozes sem rosto que tinha a infelicidade de escutar. Mas nem tudo era mau. Até porque era o som das almas que escutava como se fossem parte dela, não o sendo. Muitas vezes ficava triste. Muitas vezes ficava feliz. Muitas vezes, divertiam-na. De quando em vez, lá resolviam dirigir-se-lhe, directamente, com palavras e frases, das quais muitas vezes, não conseguia perceber o sentido, embora as ouvisse perfeitamente. Daí, neste jogo do saber, quem eram elas e porquê, acabou mesmo por conseguir fazer algumas distinções, entre estas estranhas e insólitas, amigas. E a surpresa, estonteante, levava-a a querer seleccionar quem gostaria realmente de ouvir. Mas não estava nas suas mãos, poder separar os mundos. Não estava nas suas mãos, escolher as vozes pertença de mundos distintos. Daí que, as vozes que mais a incomodavam, eram mesmo, as vozes deste mundo. Não conseguia ser poupada, até nisto. Como uma maldição .... tinha que ouvir o mundo inteiro a falar. O que, algumas vezes na vida, quando com a Velha Senhora, lhe tinha criado alguns dissabores. De facto, hoje percebe porquê. Percebe-os a todos eles e percebesse a si mesma. Embora, para bem da verdade, gostasse de não perceber ou saber nada, por essa altura. Se estivesse em suas mãos, optaria por ser a mais cega entre os cegos e mais surda entre os surdos. Porque, só queria poder estar. Só queria ser. Só queria amar. Só queria que a Sua pequena alma tivesse o direito a ser única, sem tanta interferência. Maldisse todos os Poderes desconhecidos, muitas vezes. Ficou muitas vezes triste com a Sua própria Natureza. Muitas vezes vagava no mundo, com os olhos marejados de lágrimas. Não por não ser entendida. Ela entediasse a Si mesma. E sim porque queria ser o que era. Nada! Uma criatura eternamente meiga. Eternamente sentida. Eternamente capaz de Amar até à extinção da Vida.  Eternamente ignorante das coisas da Vida Imposta, que insistia em querer fazê-la parte de si, com todas as coisas geradas num mundo que não era e nunca seria seu. Como não foi. Por isso ela estava aqui hoje. Mas, as lembranças do mundo Antigo, não as tinha conseguido apagar, mesmo perante a beleza deste mundo e de Lhaara.

Quase "desperta" destes prolongados pensamentos, enquanto deixa desaparecer sua mão na maciez da penugem de Lhaara. Mas logo a memória insiste em fazê-la recordar, tudo.

Teria estado, algum dia, Lhaara nos seus pensamentos?! É que até lhe parece conhece-la. Seria dessa altura?! Olhava Lhaara, intrigada. Se assim fosse, não estava ela zangada?! Esquecera-se de como Mary se divertira e sorrateiramente a estudara?! De como, muitas vezes, se limitava a ouvir, mais ou menos indiferente?! De quando já nem lhes dava importância. Só de quando em vez, ficava mais atenta, quando um determinado timbre lhe parecia de algum modo familiar. Paralisava instantaneamente, na esperança de algum modo, poder identificar a sua fonte. Mas raras foram as vezes que tivera essa possibilidade. Como se as nítidas vozes que telepaticamente ecoavam no seu cérebro, tivessem uma proveniência bem consciente, determinada e perfeitamente objectiva. Desistia muitas vezes e optava por as ouvir. Apenas ouvir, mais ou menos desinteressada do que falavam. Sorria ainda agora, quando se lembra que dizia de si para si mesma. - Falem para aí!... Completamente indiferente ao seu conteúdo, como se nada tivessem a ver com ela e, fossem unicamente palavras que o seu cérebro, tinha captado a qualquer distância. Mas esta voz que estava a ouvir, do mesmo modo que tinha ouvido muitas outras... Esta voz, estava ali junto a si. Era da águia que partia. Era a águia que lhe estava a falar. Já não precisava se esforçar,  ignorar ou correr a tocar algum objecto perto de si, para afastar de si mesma qualquer pensamento, como mau presságio. Aqui e agora, tinha a quem perguntar. - Laahra, recomeça a comunicar com ela:

 

- Eu, parte de ti mesma, tento que entendas o teu ser interior e te libertes do pensamento, para entenderes quem és e onde estás. - Fala-lhe, suavemente, Laahra.

- Pareces-me estranha, assim como este lugar. Isto para não falar de uma terra florida e de uma outra, onde só os ventos pareciam existir que tive oportunidade de conhecer na minha vinda para aqui. Se estou a sonhar diz-me, antes que acorde, a verdade de quem sou e porque me chamas de Laurema, o nome que guardei zelosamente ao longo da vida, como se ninguém mais tivesse o direito de o usar.

- Não és dona deste nome, no sentido que lhe atribuis. O de posse. Pois que ele, como sabes, já está gravado desde os primórdios do Tempo.

- Então diz-me a quem, verdadeiramente, pertence este nome sagrado. Do modo como sempre o senti e conheci, pode ser que o dono dele seja o nome daquele que amei, mesmo antes de nascer ou antes de tomar a forma que me cobre. Embora que para ele, guardei sempre um outro nome, diferente de todos os outros, existentes.

- Laurema, é de facto o teu nome. Mas por enquanto, não és a sua possuidora. Isto porque, não existe posse na unidade e tu o sabes. Deixa por instantes o mundo mais recuado em que viveste, pois não mais voltarás lá do mesmo modo que antes.

- Se não retorno do mesmo modo, retorno de outro? Queres dizer que estou morta e esta é a altura que alguém decide, roubando-me a memória, recolocar-me naquele mundo maldito? Mas para quê fazerem uma coisa dessas comigo, se embora não me sinta parte integrante deste sonho, o sinta como realidade minha. Se é que se pode chamar real ao irreal.

- Não posso dar-te todas as respostas que desejarias. Outros o farão por mim em devido tempo. Por ora, recorda o Senhor que anseias, pois ele não é fruto da ilusão do mundo último e anterior, onde essa tua forma foi criada. A realidade é que nasceste e aprendeste o que não devias, mas ser, nunca o serás, porque tu já és muito antes de seres. Tenta ser tu, porque aqui nada e ninguém te impedirá de ser o que és. E sossega o teu espírito, porque a tua memória não te será roubada ou retirada, muito pelo contrário. Eu – e a fantástica ave, num gesto gracioso, sacode levemente a sua penugem multicolorida – sou quem temes que eu seja, tu és quem és, e o que te rodeia é parte de ti, e aquele que regressará em breve é aquele a quem chamas de teu Amado Senhor.

 

 

- Quer dizer que então morri, embora continuando com o mesmo corpo? Pode então a matéria viver depois de morta? Estava infiltrada no pó quando morri. Ninguém estava presente para atear fogo ao corpo que me cobre... não entendo... diz-me quem é o meu Senhor e onde está Deus. Quero falar com ele e dizer-lhe o que aconteceu comigo, perguntar-lhe porque fez o mundo de onde venho, onde a única lei é o sofrimento ilimitado de cada ser humano que tem a infeliz desdita de ali nascer, seja no antes, no agora ou no depois. Perguntar-lhe porque permitiu tudo quanto aconteceu neste mundo e vai continuar a acontecer, sem interferir para parar tanto massacre humano. Se és o seu mensageiro e não me for permitido vê-lo, leva-lhe uma mensagem, porque todas as que lhe transmiti na vivência ele ignorou. Se foi ele que criou o mundo como eu o conheço e, se podendo, nada fez, eu não o quero, porque me fez nascer lá e me ignorou todos estes anos de martírio, estando desde o princípio ao fim dessa existência, sujeita a leis que não eram as minhas, sofrendo humilhações, tendo que ser o que não era, impotente perante todo o sofrimento humano que existia.

 

- Pobre Laurema, que não consegues entender que nem estás viva nem estás morta. Que continuas a usar as mesmas definições do mundo que sempre desprezaste, até para exprimires o teu próprio mundo que não tem definições: Apenas é! É tão simples como o teu ser interior e, neste momento, nem o consegues pôr a agir. Usarias tu no outro mundo o teu interior e neste mundo o teu exterior? Estás também a alterar a Ordem da Lei. Como queres tu entender?!... não consegues situar-te... mas nós sabemos como será difícil para ti entender esta verdade, depois de viver presa na matéria.

- Se é como dizes, que não estou morta nem viva, então o que sou neste momento?

 

Descendo levemente uma de suas asas, alongando-a na horizontal até onde se encontrava Laurema, Laahra, convida-a com o seu nobre gesto, a subir e instalar-se confortavelmente num rectângulo acabado de aparecer, magicamente, com tantas cores que Mary recostada nele nem se distinguia a olho nu.

- Vou mostrar-te um pouco deste mundo e dos que lhe estão interligados. As passagens intermédias de uns para outros. Em cada um, conforme o seu curso de vida, difere em lei e em ordem. Mas, antes disso, quero contar-te como aqui vieste parar.

 

 

E enquanto planava por entre todos os céus, Laahra conta-lhe todos os ínfimos pormenores da recuperação dela das garras da matéria e do sono que tinha se imposto a si própria, quando a morte do seu corpo tinha chegado.

- Laahra, onde está o meu Senhor Amado? Preciso de o recordar.

- Eu sei que só quando tu o tocares é que o conhecimento total da Verdade-Justiça e do passado longínquo, voltará a ti. Mas terás que aguardar junto comigo que ele regresse da Cidade-Brilhante. Até lá, mostrar-te-ei a Terra, isto é: Uma das suas quatro partes, para que te familiarizes com o mundo exterior onde te encontras, que é o teu interior ao contrário do mundo em que viveste.

 

 

E foi assim que Laurema foi vivendo os dias sem princípio nem fim deste mundo.

 


amor, essência, ficção, livro, matéria, morte, vida

publicado por lazulli às 17:53
Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008
SintoMe: com sono

EscritoPorLazulli lazulli às 02:07
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