CasaDeCristal, lazulli, eu, mary paz, humanidade escravizada, a grande mãe, 2006, 1990
Domingo, 30 de Agosto de 2009

Palavra

 

ac

 

 

 

Ah !... meu quinto elemento. Senhora Suprema. Poderosa Senhora. Ninfa eterna e sagrada, que és tão mal utilizada por quem pensa poder manipular-te à vontade. Quando olho atenta, as tuas formas já transformadas em belas palavras. Tecida com finos fios coloridos e espraiada, aos olhares do mundo, transformada no mais bonito manto, que nem Penélope conseguiria bordar no seu desespero da espera eterna por seu amado esposo, que parecia perdido, mas não para ela, que enganou todo o concorrente à liderança da sua Casa, tecendo de dia e desfazendo de noite, a sua própria criação, teria conseguido, dar-te brilho maior.

Lembro-me nesta minha desdita de também te entender e interpretar sem margem de erro, da minha primeira iniciação; onde 22 pobres mortais se preparavam à entrada do Templo para receberem a aceitação dos deuses desconhecidos. Olhando aqueles rostos ambiciosos, ávidos do conhecimento escondido, convictos da sua superior diferença com os demais mortais, eleitos por si mesmos, para ocupar um lugar de destaque, na criação do Mundo, convencidos de serem os eleitos dos mistérios impenetráveis... recordo o mesmo pavor a mesma angustia, que ainda hoje tenho, quando eu mesma, te bordo, delicadamente, mas se calhar inconsciente, não do teu poder, porque o sei, mas sim da minha incapacidade ou não direito, de também eu te transformar. Tento, tento sempre as palavras puras, sem nenhum significado de mais valia. Não procuro as tuas palavras, antes permito que elas, as tuas palavras, me procurem a mim e gentilmente me cedam o seu contributo, para a minha expressão humana.

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Mas, o receio de não ter o direito de o fazer, está vivo em mim, como a experiência daquele dia. Dia de Anúbis . O guardião do portal que olhava atento todo o candidato, a entrar no reino desconhecido. Por essa altura, fechei os olhos e disse para quem sempre me escutou e onde a distância não existe. E, também os únicos que te conhecem em toda a tua plenitude. Os únicos que podem ouvir o meu som sem eu temer ser como todos os outros: - Se eles estão todos preparados, eu não estou. E, desejei correr dali para fora, tal era o meu pavor. Tal era a minha não certeza de ter o direito a entrar ali. Só a presença de dois amigos que também iriam fazer parte do mesmo ritual, me impediu de regressar ao mundo normal. Por eles, não por mim, fiquei. Mas, no silêncio de mim mesma disse: - Anúbis castigará quem se atrever a desvendar os mistérios impunemente?! Como?! Tive medo! E se eu não estivesse preparada? Sentia que não estava. - Senhor, protege-me. Tu conheces-me. Sabes quem sou. Por isso, se ainda não estou preparada para ali entrar e, acho que não... Tu sabes o que eu sinto. Contigo do meu lado nunca temi coisa nenhuma... e, assim foi.... depois, depois.... talvez um dia... quem sabe?! - Penso que todos ali presentes, não entenderam o aviso. Todos tinham certezas, quanto a serem os melhores do mundo. Os especiais. Os Eleitos. Os escolhidos, tão procurados. Como se isto... fosse coisa possível de se aprender e do não nascer!... Ai... tanta loucura. Quanta insanidade. E, Anúbis assim como a Palavra, mostrou que nada fica impune. E, a sua actuação não ficou ao alcance do entendimento de qualquer um deles. Creio até, que de nenhum deles. Mas ficou do meu. Por isso choro muitas vezes. Porque é difícil, o entendimento, dos seres e entre os seres. Porque eu vi a sua manifestação futura, nas vidas arrogantes que ali entraram. Como vi! Não é de fácil entendimento, os mistérios que nos cercam. No entanto, basta ser apenas um ser, sem pretensões, para se poder caminhar em paz. Mesmo dentro da dor. A paz existe. Uma paz que também, não se traduz. Mas, não é sobre Anúbis e os mistérios, é sobre ti Senhora que eu quero continuar a falar. Talvez para que nunca me esqueça de quem és e do incrível poder que tens. Falo com a minha alma. Escrevo-te com as minhas mãos e amo-te com o meu ente. E, recordo isto e muito mais do que isto, sempre que as minhas mãos voam descuidadamente por cima da configuração que representa cada letra tua. Verdadeiros hieróglifos para serem cuidados, com carinho. Procurando dar-lhes a forma. Realizar o milagre de te trazer à luz junto comigo. É que assim como naquele dia, muitos, convencidos de que tudo sabem, não fazem ideia como os ditos mistérios se prenunciam nas suas vidas. Não têm ideia nenhuma como são e como se revelarão. A sua convicção de superioridade, é arrogante demais, por isso se dizem humildes e bons e exigem isso dos que lhe parecem inferiores, por lhes parecer, que não podem saber mais do que eles e não falarem coisas bonitas. E, um dia... a Senhora Sagrada, assim como Anúbis, dar-lhes-á conta que se calhar nada são. Como tudo e todos, que povoam este estranho mundo. Que não é o mundo das almas, que nos compõem e sim o mundo dos corpos que nos transportam.

 Mas, é sobre a Palavra, aquela que estou a utilizar de momento, não é bem assim, neste instante és tu que me estás a utilizar a mim. Aliás, em muitos instante, és tu a Senhora absoluta das minhas mãos e dos meus dedos. Deixo que sejas tu mais sábia que eu, a correr livremente pelo plano que te estendo. Deixo-te correr solta e, como criança infimamente pequena , vejo-te correr saltitando, com movimentos dançantes, sobre a tela de qualquer cor. Fico inebriada de felicidade quando te observo na tua felicidade de liberdade e apreensiva, triste até, por temer, que algo ruim aconteça que te pare abruptamente e na tua queda eu me fira junto contigo. Pois se eu te dou forma e te provoco o movimento, sou responsável por ti, apesar de seres mais poderosa do que eu. Mas, os pequenos, sempre querem, mesmo sem capacidade, tentar proteger os grandes da sua sábia loucura. E, acontece-me isso para contigo. E, como pequeno é sempre pequeno, sempre sou eu que choro no fim de tudo. Mas, não temo a palavra que de mim sai. Temo alguma coisa. Não sei o quê. Talvez tema esta minha inconsciência de te expandir. Esta força interior de te transmitir. Temo por ainda não saber estar a fazer a coisa certa. Porque, até aqui guardei-te zelosamente em mim e nos lugares que guardava para ti. Depois... deixei-te solta por aí, e continuo a acrescentar mais de ti. Faço o que nunca esteve previsto em mim fazer. E, não sei porque o faço. Mas faço. Era suposto, ser assim?! Falando de ti e de mim, para o mundo?! E, onde está a reserva de que tanto me orgulhava?! Onde está o meu perpetuo silencio?! Onde estou eu?! Sem nada saber, de mim mesma, neste propósito que me ultrapassa e que me acrescentou, sentires e dores que não tinha, que de todo desconhecia, vivo tranquila comigo mesma e com esta Senhora, velha amiga. E, ela dilui-se suavemente dentro de mim. Já gritei ao mundo que me impedisse de continuar. Mesmo não sabendo se estou a fazer a coisa certa. Ninguém ouviu o meu grito. Ninguém quis saber. E, mais uma vez, estou só comigo mesma. Incapaz de me entender. Por isso vou continuar este caminho, que não tracei, que não escolhi, à espera de entender porque existe ele. E, só conto com a minha alma que eu sei ser pura de verdade, para me defender e também nunca trair aquilo em que acredito. No poder desta Palavra que no tudo, nada contém. Se têm, possibilidades de a entender... não sei... Céptica que sou, não acredito nessa possibilidade. Mas também não é por isso ou para isso que aqui estou. É por coisa nenhuma. Sei lá! Darão sentido ao sem sentido. E, era tão fácil ... E a eles, temo-os sim, Senhora minha. Temo. Porque interpretam o que não tem interpretação. Conhecem-te ou julgam conhecer-te e facilmente atingem o meu ser. Aquele que sabes que é frágil quando se trata do sentir. Por isso Amada, continua a conduzir as minhas mãos e sempre aliada da minha alma para que esta não se sinta muito ferida por deduções feitas por teu intermédio. Liga a palavra à alma. Tanto a falada como a escrita e assim a verdade será a única que brilhará na mente de cada um. Simplesmente palavras simples. Aquelas que não sendo pejadas de lindos significados, são o significado do sentir. Que é coisa pequena comparado contigo.

 

indo
 
eu. literatura, palavra. prosa
 
publicado por lazulli às 19:27

Domingo, 11 de Novembro de 2007


EscritoPorLazulli lazulli às 21:51
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